Por Debbie Leite
Eis uma das narrativas sobre as mulheres nas eleições presidenciais de 2026: Existe um setor reacionário, representado por Flávio Bolsonaro e seu partido, armado do discurso de ódio machista, determinado a retroceder em nossos direitos mais básicos e nos relegar a um lugar de submissão. Eles estão ganhando a maioria da sociedade e esmagando qualquer possibilidade de resistência, e a única forma de derrotá-los é nos aliando a quem governou pelos últimos quatro anos. Se você começou a abrir a boca para levantar uma queixas sobre como esse governo nos tratou até aqui, não o faça – as críticas só fortalecerão nossos grandes inimigos.
Ou talvez você esteja no outro lado da barreira algoritmica, e a narrativa que te alcançou foi a seguinte: O governo Lula é responsável pelo recorde de morte de mulheres que vimos nos noticiários, está atolado em corrupção e não faz nada para defender as nossas vidas. Além disso, o preço dos alimentos só sobe, como bem sabem as mães, chefes de família, que vão ao mercado tentar realizar o milagre de transformar um salário mínimo em refeições para seus filhos. Você pode ter suas ressalvas quanto aos Bolsonaros, seus envolvimentos também nos escândalos de corrupção e elementos mais extremos de seu discurso, mas a única forma de defender as nossas vidas e nossas famílias é derrotando o Lula nessas eleições, custe o que custar.
Pode ser difícil ver a verdade por trás das narrativas. Existe sim um setor reacionário, violento e autoritário querendo retirar os nossos direitos; e existe também um governo atual que atacou os trabalhadores e beneficiou os banqueiros, que não avançou para melhorar as nossas vidas ou em organizar a classe e seus setores oprimidos para lutar, e que agora utiliza seus adversários eleitorais para blindar-se das críticas.
O pêndulo eleitoral, que oscila entre um lado e outro, paira sobre as cabeças das mulheres trabalhadoras como um machado – não importa de qual lado ele pare, não há resultado que não nos fira. É por isso que buscamos uma alternativa por fora da atual polarização política, chamando o voto nulo no segundo turno, mas principalmente chamando por uma organização política independente de nossa classe para além dele.
GOVERNOS DO PT: UM LEGADO DE TRAIÇÕES
O Partido dos Trabalhadores governou o país por dezoito anos, sendo doze sob Lula e seis sob Dilma, que na época despertou grandes esperanças como a primeira presidente mulher. É preciso fazer um balanço honesto sobre o que isso significou para as mulheres trabalhadoras (um recorte de classe que faremos sempre, pois entendemos que as mulheres que enriquecem explorando o trabalho de outros não tem os mesmos problemas ou interesses das que são exploradas).
O aspecto mais gritante da opressão às mulheres é o feminicídio, o machismo levado às últimas consequências e motivando assassinatos. Enquanto é verdade que o Brasil bateu recorde de feminicídios em 2022, sob o governo Bolsonaro [1]; também é verdade que essa estatística vergonhosa continuou a ser superada a cada ano posterior sob Lula, sendo 1571 vítimas registradas apenas em 2025, 4% a mais que no ano anterior, além de 4189 que sobreviveram a tentativas de homicídio [2]. Das vítimas, há que se ressaltar que 65,1% eram negras.
A lei contra o feminicídio existe, mas a verba para colocá-la em prática nunca chegou. O governo Lula implementou o Arcabouço Fiscal, um conjunto de regras que limita os gastos em políticas públicas, o que inclui e afeta os gastos com a proteção às mulheres e acolhimento das vítimas de violência. Em 2024, apenas 12% do valor planejado para combate à violência de gênero foi pago de fato; a Central de Atendimento à Mulher (180) recebeu menos da metade do valor destinado [3].
O Brasil possui hoje 585 Delegacias da Mulher [4]. É um número muito abaixo do necessário para a extensão territorial e população do país, sendo que a região Norte é a menos atendida. Isso deixa milhares de mulheres sem ter onde procurar atendimento especializado, e mesmo onde há delegacias, muitas delas ainda não funcionam 24 horas por dia.
A violência doméstica não está desconectada da situação econômica das trabalhadoras. Um dos impeditivos para que as vítimas possam sair de relações abusivas é a dependência financeira do abusador; o que significa que o desemprego e os baixos salários as deixam em uma situação mais vulnerável.
A média salarial já é baixa para todos os trabalhadores brasileiros – 69,1% ganhando menos de dois salários mínimos – as mulheres recebem ainda 21,2% a menos que os homens no setor privado, segundo levantamento de 2026. Essa disparidade cresceu entre 2025 e 2026, e é mais gritante em relação às mulheres negras, que recebem em média 114% a menos que homens não negros [5]. As empresas frequentemente tem políticas excludentes para mães, com menos de 30% oferecendo auxílio-creche.
Esses dados, que já são preocupantes, se tratam apenas do mercado de trabalho formal; sendo que muitas trabalhadoras sofrem também na informalidade e no desemprego. Em 2025 registrou-se que o índice de desemprego entre mulheres negras de 18 a 24 anos era 1,6 vezes maior que entre homens brancos; entre 25 e 29 anos a diferença aumentava para 2,8 [6]. Quando encontram emprego, muitas vezes é em setores terceirizados, que também as colocam em piores condições para conseguir se organizar sindicalmente e exigir seus direitos.
Enquanto os salários seguem baixos, os preços dos alimentos e necessidades básicas como moradia só aumentam. Devemos lembrar que na maior parte dos lares brasileiros são sustentados por mulheres, particularmente negras [7], que além do trabalho carregam o peso das tarefas domésticas e de gerenciar o dinheiro e a compra de alimentos para tentar chegar ao final de cada mês.
Há também demandas históricas das mulheres que foram negadas – principalmente, o direito ao aborto. Estamos falando da possibilidade de decidir sobre o destino de seus próprios corpos, de optar se e quando querem ser mães, e de ter acesso a procedimentos médicos gratuitos e seguros caso optem por interromper uma gravidez.
A criminalização do aborto, mantida por todos os governos do PT, não impede que as mulheres abortem, apenas permite que elas morram no processo. Novamente, a desigualdade social é um divisor importante – as que tem dinheiro para procedimentos clandestinos seguros, ou até para sair do país para realizá-los, não precisam arriscar as suas vidas como os trabalhadoras. Aqui, não é possível culpar “o Congresso conservador” por não permitir que os presidentes bem intencionados do PT concedessem esse direito; tanto Dilma quanto Lula já recorreram aos setores religiosos em período eleitoral afirmando serem pessoalmente contra o aborto [8][9].
Ao mesmo tempo que nos tiram a escolha sobre a maternidade, deixam as mães sem amparo. Só em 2025, dois milhões de crianças ficaram fora das creches por dificuldade de acesso [10]. Mães que trabalham na escala 6×1 – escala que Lula começou a se opor apenas com a proximidade das eleições, enquanto garantia através das direções sindicais que essa luta não chegasse a uma greve geral [11] – também sofrem com a completa falta de tempo de qualidade para passar com seus filhos.
Esse é o retrato dos governos do PT para as mulheres trabalhadoras: bilhões para os banqueiros, nos pagamentos da dívida pública, centavos para o combate à violência. Os empresários nunca lucraram tanto, nós nunca trabalhamos tanto para poder comprar tão pouco. E direitos como o aborto são tirados de discussão pois ameaçam suas alianças com os setores mais conservadores da sociedade.
Há quem diga que “não é a hora” para apontar essas contradições do projeto petista; mas para eles “a hora” jamais chegará: Se Lula vencer, deveremos permanecer caladas, pois ele precisará governar com um senado majoritariamente reacionário e qualquer critica o enfraquece; se Flávio Bolsonaro vencer, deveremos dar as mãos ao PT enquanto oposição, esquecer qualquer motivo por desconfiança e nos limitar a enfraquecer esse eventual governo bolsonarista em vez de lutar por sua queda.
Nós, por outro lado, nos recusamos a ficar refém do projeto petista por medo de um mal maior, até porque foi às sombras do próprio governo Lula que esse mal encontrou terreno fértil para crescer.
BOLSONARISMO: A FACE MAIS VIOLENTA
A ascensão e consolidação de um setor de direita abertamente contrário aos direitos sociais, dos trabalhadores e dos oprimidos e até às liberdades democráticas é um fenômeno internacional, que se expressa no Brasil com o chamado bolsonarismo (representado primeiro por Jair e agora por seu filho e pelo Partido Liberal, apesar de ter figuras alinhadas em outros partidos também).
O discurso “anti-feminista” adotado por alguns dos candidatos eleitos em 2026, muitas vezes apoiado em justificativas fundamentalistas e ganhando popularidade nas redes sociais, deve ser entendido como uma reação às lutas protagonizadas pelas mulheres e demais setores oprimidos nos últimos anos, em nosso país especialmente desde 2013 – que não conseguiram arrancar vitórias maiores graças às políticas de cooptação do capitalismo e da democracia burguesa. Em uma tática para buscar culpados pelas dores e frustrações dos trabalhadores e dividir a nossa classe, colocam “feministas” e LGBTs como os alvos da vez; nos inundam dia após dia com declarações bizarras contra a autonomia das mulheres, a humanidade das pessoas trans, e etc. buscando ampliar o raio de direitos que é socialmente aceitável questionar.
Suas expressivas votações não devem ser entendidas como uma adesão geral da população a ideias como “mulheres não deveriam votar”. Em primeiro lugar, esses representantes não tiveram uma vitória absoluta – as eleições têm regras notoriamente anti-democráticas e são um retrato distorcido das opiniões da sociedade – e ainda observamos uma polarização, com uma parcela expressiva principalmente de jovens se mobilizando pelo combate às opressões. Em segundo lugar, vemos que os votos no PL ainda carregam frequentemente o conteúdo de simplesmente uma oposição ao PT.
Como demonstramos anteriormente, o desgaste e até a raiva com os governos do PT tem motivos materiais; mas ressaltamos que o bolsonarismo não deve ser visto como uma alternativa. Não é verdade que “qualquer coisa que tira o PT” vai melhorar as nossas vidas. Temos o exemplo do mandato de Jair Bolsonaro que, além de deixar milhares morrerem na pandemia, buscou retirar principalmente os direitos das mulheres, se colocando por exemplo a favor de reduzir a licença maternidade [12]. Vale lembrar que sob seu mandato o Ministério da Mulher, nas mãos de Damares Alves, foi mais uma ferramenta para guerra ideológica contra a diversidade de orientação sexual e identidade de gênero do que um apoio para qualquer política que combatesse a violência e protegesse as nossas vidas.
Agora, de forma oportunista, apontam para o recorde de feminicídios no governo Lula – um dado real – para tentar ganhar votos entre as mulheres (até porque entre elas a rejeição ao governo de Jair Bolsonaro foi maior). Não é acidente que em seu discurso após o primeiro turno, após agradecer os votos, a primeira crítica colocada por Flávio Bolsonaro foi que o PT deixa um legado de mulheres mortas – ele sabe o apelo que essa pauta tem.
Bolsonaro, pai e filhos e esposa, e toda a sua base do PL, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, são categoricamente inimigos das trabalhadoras e devem ser rechaçados e combatidos. Infelizmente, eleger o Lula em 2022 não serviu para combatê-los; na verdade, foi durante esse último governo que eles se recomporam após a tentativa frustrada de golpe e as manifestações desmoralizantes do 8 de janeiro de 2023 e cresceram a ponto de conquistar a maioria mais expressiva no Senado desde a redemocratização do Brasil.
Foi por conta do espaço aberto pelo próprio governo, com suas traições aos trabalhadores e recusa a avançar em uma série de direitos que agora correm o risco de retroceder, e a desmobilização dos sindicatos e movimentos sociais. Da mesma forma, não é votar em Lula agora que os derrotará, mas unificar e organizar a classe por baixo de forma independente e adotando nossos métodos de luta.
POR QUE O CAPITALISMO OPRIME AS MULHERES?
Para entender porque os direitos das mulheres parecem passar por avanços e retrocessos, porque os direitos que conseguimos arrancar com a luta parecem sempre pela metade e provisórios. Para entender como surgem setores como a extrema direita bolsonarista e porque os setores ditos progressistas não são capazes de atender nossas demandas, precisamos entender a relação do sistema capitalista com a opressão das mulheres.
A opressão não é resultado de alguma diferença biológica entre homens e mulheres, de um ser mais forte e propenso à caça e a outra mais fraca e propensa ao lar ou lendas desse tipo. Ela deriva de processos sociais, ligados à forma de produção e propriedade de cada período histórico – desde a emergência da propriedade privada passada por herança pela linhagem paterna, que resultou em um controle sexual e social da mulher.
A posição inferior relegada às mulheres na sociedade capitalista permite, em primeiro lugar, a superexploração econômica – na forma de salários mais baixos pagos por trabalhos em piores condições. Especialmente nos momentos de crise, grandes massas femininas compõem o exército industrial de reserva, no desemprego ou no subemprego, que por sua vez é utilizado para baixar a média salarial geral.
O machismo também é usado como justificativa para colocar sobre as trabalhadoras o peso do trabalho reprodutivo – isto é, tarefas que não são parte diretamente da produção de riqueza, mas que são essenciais para a manutenção da força de trabalho. A limpeza, o preparo dos alimentos, o cuidado dos filhos e dos idosos e enfermos, são todos colocados como pertencentes à esfera privada, a serem realizadas principalmente pelas mulheres. Assim, o Estado se exime de tomar para si a responsabilidade sobre essas questões.
Os direitos das mulheres, seja a emancipação das tarefas do lar, a autonomia política e econômica, ou a decisão sobre sua vida sexual e reprodutiva, são tarefas democráticas que o capitalismo não cumpriu e se beneficia em não cumprir. Não quer dizer que não podemos ter conquistas – podemos e é essencial lutar pelas medidas que melhorem nossas vidas e inclusive ampliem nossa possibilidade de organização política agora, como a ampliação da licença maternidade e paternidade, o acolhimento às vítimas de violência doméstica e o fim dos assédios em ambiente de trabalho.
Ao mesmo tempo, as conquistas sob o capitalismo são parciais e não tem garantia nenhuma de se manterem de pé. Um exemplo é o acesso ao aborto nos Estados Unidos; uma decisão judicial descriminalizou o aborto em todo o país em 1973. Isso não quer dizer que o acesso era democrático e igualitário, pois a ausência de um sistema público de saúde significava que as trabalhadoras muitas vezes foram excluídas desse direito. Já em 2022 essa decisão retrocedeu, permitindo que uma série de estados impusessem restrições ou até o criminalizassem completamente.
Os ascenços de lutas dos setores oprimidos da classe conseguem arrancar vitórias dentro do capitalismo, mas também despertam uma reação do sistema para tentar amortecer o impacto – e aí entram as chamadas políticas de cooptação ou de “capitalismo rosa”. Lideranças do movimento são absorvidas pelos partidos da ordem e a mobilização é interrompida e canalizada para dentro do regime. Ganha visibilidade a ideologia de empoderamento, em que ter mulheres individualmente ocupando posições de destaque dentro de empresas ou na mídia é vendido como uma saída para todas. Há até uma mercantilização das pautas de luta, com as empresas tentando incluir ser aliada das mulheres como parte de sua marca, e o consumo de seus produtos como uma ação de luta. Tudo isso contribui para a desmobilização.
Essa política de cooptação, empoderamento, libertação pelo consumo e representatividade atinge o seu auge ao redor da década de 2010 e passa por um processo de desgaste e enfraquecimento – em grande parte porque a experiência demonstrou sua inefetividade. Com o esgotamento do “capitalismo rosa”, se abrem reações para os dois lados: representantes do capitalismo que adotam uma política aberta de machismo, LGBTfobia e racismo, não mais disfarçando o seu ódio contra os oprimidos; assim como um espaço para um movimento de combate às opressões mais radicalizado, que não confia nas empresas e nos governos, que quer lutas que ultrapassem os limites do sistema.
O segundo turno das eleições no Brasil expressa isso; com o bolsonarismo cumprindo o papel do extremo contra os oprimidos. Nós queremos dialogar com o outro lado, com os trabalhadores oprimidos que se sentem frustrados com os anos de votar em representantes que dizem estar do nosso lado mas usam nossas pautas como moeda de troca nas negociatas políticas, que não confiam nas empresas que um dia exploram o nosso trabalho e no outro tentam se vender como uma marca de mulheres empoderadas, e que cansaram de ouvir que precisamos ter calma e esperar o momento certo para nos levantar.
Se queremos ter conquistas completas e duradouras, temos que construir um projeto que supere o capitalismo – um Estado dirigido pela classe operária. Fazemos também o chamado para que a luta contra as opressões seja tomada pela classe operária de conjunto. Um trabalhador homem pode achar que se beneficia da submissão de sua companheira, mas essa divisão da classe rebaixa os salários e o nível de vida para todos nós, além de enfraquecer a nossa luta coletiva. Nenhum de nós será livre até que todos sejam livres.
COMO ORGANIZAR O CONTRA-ATAQUE?
Digamos que o leitor concorde conosco: que o bolsonarismo precisa ser combatido, e que o PT também governou para nossos inimigos e não vai melhorar nossas vidas. Que o capitalismo não tem como garantir os direitos, e a classe trabalhadora precisa se organizar para superá-lo. Uma questão pode ainda incomodar: Como estaremos em melhores condições para nos organizar e lutar? Não seria melhor mais um governo Lula, que pelo menos garanta os direitos democráticos para os movimentos sociais?
Não suficiente o fato de que o PT já se demonstrou mais do que disposto a também reprimir os movimentos sociais – vide a Lei Antiterrorismo, aprovada sob Dilma, que permite que lutadores sejam enquadrados como terroristas e punidos severamente; ou a operação da Garantia da Lei e da Ordem, também sob Dilma, colocando as forças armadas nas ruas para reprimir o povo. A função do Estado no capitalismo é de manter a classe dominante no poder, e para isso detém o monopólio do uso da violência, e se utiliza da violência para reprimir qualquer ação que ameace seu poder; esteja ele nas mãos de um governo “de esquerda” ou “de direita”.
Não negamos as ameaças de um projeto de ditadura pelo bolsonarismo – o projeto de golpe de estado já foi comprovado – e frente a essas ameaças defendemos as poucas liberdades democráticas que temos (sem deixar de apontar que esta democracia que vivemos é burguesa, pertence aos ricos). Questionamos, contudo, se um projeto de golpe (ou, na visão de alguns, até de fascismo) se derrota com o voto – e achamos deseducativo para a classe trabalhadora quando a maior parte da esquerda responde que sim.
Os anos de governo do PT nos colocaram em melhores condições para lutar? A verdade é que a maior parte das direções sindicais, como a CUT, e de diversos movimentos sociais, como a Marcha Mundial de Mulheres, estiveram inteiramente atreladas ao governo – e por conta disso não puderam organizar as lutas, para que não se chocassem com o governo. O legado do PT é o da desmobilização e desorganização da classe, é o de frustrações profundas nos trabalhadores da década de 80 que confiaram nessa liderança e viveram a traição, e deixaram de acreditar em sua própria força para lutar, é o das burocracias sindicais e do esvaziamento das ruas. O fortalecimento da extrema-direita que levou aos resultados eleitorais de 2026 e um possível governo Flávio Bolsonaro também fazem parte do legado do último governo Lula, assim como o fato de que não estamos organizados para dar o contra-ataque.
Agora, um setor que começou se posicionando como oposição de esquerda ao governo Lula, mas aceitou cada vez mais ser incorporado ao mesmo, afirma que a tarefa da classe trabalhadora é não só votar 13, mas fazer campanha, virar votos, fazer atos de rua que mais lembram um comício eleitoral. Ou seja, não apenas não podemos questionar as contradições desse governo, quanto às mulheres trabalhadoras ou qualquer outro tema, como temos que tomar para nós a responsabilidade de recompor a base eleitoral que ele perdeu por suas próprias traições! Nos solidarizamos com os companheiros que viram nos atos contra a extrema-direita das últimas semanas uma oportunidade para enfrentar esses políticos reacionários que nos ameaçam, mas não concordamos que esse objetivo se alcançará por meio do apoio eleitoral ao PT.
Quando o progressismo dá a mão à mulher trabalhadora, é para conduzi-la a sua morte, como um sacrifício em nome da democracia burguesa e do mal menor. Não é hora de exigir mais, nunca será hora de exigir mais, podemos apenas nos contentar que o mal maior não venceu (por enquanto). É esse o projeto ao qual nos opomos.
Chamamos neste segundo turno pelo voto nulo, e acreditamos que essa é a posição mais coerente com as mulheres da classe trabalhadora. O projeto que precisamos construir para conquistar e consolidar nossos direitos e nossa emancipação, contudo, não cabe em um voto: nulo, útil, ou o que for. O verdadeiro chamado que deixamos, portanto, é para a construção cotidiana de uma organização da classe operária, para arrancar o capitalismo pela raíz e construir o socialismo sobre suas ruínas.
É preciso desenvolver a auto-defesa na classe trabalhadora, como forma imediata para combater o feminicídio, unindo homens e mulheres contra toda forma de opressão.
Venha conhecer a Voz Operária Socialista!
REFERÊNCIA
[8] https://oglobo.globo.com/politica/carta-de-dilma-sobre-aborto-liberdade-religiosa-2938809
[11] Leia mais sobre os acordões do governo para não acabar com a escala 6×1:
[12] https://veja.abril.com.br/politica/bolsonaro-defendeu-reducao-da-licenca-maternidade/

