COMO O LEVANTE DOS IMIGRANTES PODE DERRUBAR TRUMP

Por Debbie Leite – Voz Operária Socialista (Brasil)

Quando agentes do ICE atiraram contra Renee Good em Minneapolis, a resposta do movimento de massas foi imediata e incessante. As lutas e iniciativas de auto-organização em defesa dos imigrantes, que já existiam ao redor do país, deram um salto, começando pelos mais de mil protestos marcados para aquele fim de semana e culminando em uma greve geral em Minnesota. O governo respondeu com ainda mais autoritarismo, e a polícia anti-imigrantes fez novas vítimas, mas os lutadores não se amedrontam e não recuam, com cada vez mais setores sociais envolvidos e táticas mais radicalizadas. Estamos diante da possibilidade de uma importante derrota, talvez fatal, para o governo Trump.

A OPERAÇÃO DE TERROR DO ICE EM MINNESOTA

 As políticas ofensivas de deportações são uma realidade nos Estados Unidos há décadas, inclusive sob gestões de Democratas como Obama e Biden. O governo Trump, entretanto, se destaca não apenas no discurso abertamente xenofóbico, mas também em suas táticas repressivas, enchendo os centros de detenção de famílias imigrantes e criando um cenário de guerra nos bairros, com operações militares que levam moradores de suas casas e locais de trabalho, e até mesmo estudantes e pais dos estacionamentos das escolas. Os executores dessa política violenta são os agentes do ICE, que operam sob o Departamento de Segurança Interna.

 A presença do ICE gera medo e revolta nas comunidades, tanto nos imigrantes quanto nos estadunidenses nativos, que começaram a tomar para si o papel de defender uns aos outros. Iniciativas como a organização de patrulhas e grupos de comunicação para responder rapidamente às operações de apreensão se espalharam por diversas cidades, com moradores saindo às ruas para monitorar, documentar e, sempre que possível, atardar o avanço dos agentes [1].

 Minneapolis e Saint Paul, cidade vizinha, são alvo da Operação Metro Surge, que enviou dois mil agentes para a região com o objetivo de aumentar as detenções e deportações de imigrantes sem documentação. Renee Good, cidadã americana, estava nas proximidades de uma operação e observava legalmente quando foi morta a tiros dentro de seu carro, no dia 7 de janeiro de 2026. A morte de Alex Pretti duas semanas depois se deu circunstâncias semelhantes, quando o enfermeiro segurava um celular para registrar as ações dos agentes e foi baleado.

 Em ambos os casos as autoridades tentaram justificar os assassinatos como “legítima defesa” por parte dos agentes. Renee Good foi acusada de tentar atingi-los com seu carro, e Pretti foi acusado de estar carregando uma arma de fogo. As testemunhas locais e as imagens registradas por elas foram fundamentais para desmentir essa versão dos fatos.

 Os incidentes aumentaram a pressão nos governos para darem uma resposta. Tanto o governador de Minnesota quanto o prefeito de Minneapolis se pronunciaram repudiando o ocorrido, e pedindo novamente à Casa Branca que retirassem os agentes federais e dessem um fim à Operação [3]. O pedido oficial, protocolado pelo estado e as cidades, por uma ordem de emergência retirando o ICE da região foi negado pela juíza federal Katherine Menendez [4].

 A indignação popular foi inflamada ainda mais pela detenção de crianças. Uma imagem impactante que circulou internacionalmente pelas redes sociais foi a de Liam Conejo Ramos, de apenas cinco anos, sendo apreendido por agentes do ICE quando chegava em casa após a escola, sendo ainda utilizado como “isca” para a captura de sua família. Esse não foi um caso isolado, com pelo menos quatro crianças detidas na região no mesmo mês, segundo a administração do distrito escolar [5]. Liam e seu pai, que ingressaram legalmente nos Estados Unidos sob um pedido de asilo, ficaram em uma prisão no Texas, a mais de 1500 quilômetros de distância de Minneapolis, e foram libertos no dia 1 de fevereiro, sem dúvidas como resultado da visibilidade que ganhou o caso e a resposta popular.

A REVOLTA POPULAR TOMA OS EUA

 Os assassinatos em Minneapolis foram a última gota para transbordar a revolta contra o governo Trump, suas forças armadas e sua política anti-imigração. Desde o início de janeiro os protestos estão em uma dinâmica de crescimento e fortalecimento, que não dá sinais de parar.

 Uma das mais importantes demonstrações desse processo foi a greve geral em Minnestoa no dia 23 de janeiro. Chamado como o “Dia da Verdade e Liberdade” (“Day of Truth and Freedom”), sob a orientação “sem trabalho, sem escola, sem compras” (“no work, no school, no shopping”), a paralisação foi um importante sinal da entrada da classe trabalhadora organizada no processo. Entre os organizadores estavam sindicatos de setores como transportes, aeroportos, serviços, hospitalidade, comunicação e educação, além de organizações comunitárias, líderes religiosos e pequenos comércios [6]. As imagens de milhares de pessoas tomando as ruas neste dia são ainda mais impressionantes quando consideramos as duras condições do inverno no norte do país, atingindo temperaturas negativas que não foram capazes de impedir a população de sair de casa para lutar [7]. Uma pesquisa entre os eleitores do estado demonstrou que 45% apoiou o dia de paralisação (a pesquisa não considerava pessoas sem documentação ou jovens abaixo da idade mínima para votar, o que sem dúvidas teria aumentando ainda mais a proporção), quando considerando apenas eleitores negros o apoio subia para dois terços [8].

 Os protestos não ficaram restritos a Minnesota, mas se espalharam pelo país. Após a morte de Pretti, eventos em memória às vítimas do ICE ocorreram em 43 estados, e protestos pedindo a saída dos agentes de suas cidades ocorreram em cidades da Califórina, Oregon, Washington, Nova York e Texas [9]. Uma manifestação importante também ocorreu fora dos Estados Unidos. Uma semana antes do início das Olimpíadas Inverno na Itália, centenas de manifestantes tomaram as ruas de Milão protestando contra o envio de agentes do ICE para “auxiliar com a segurança” do evento, arrancando inclusive uma declaração do prefeito da cidade afirmando que os agentes não eram bem-vindos [10].

 Greves e protestos vêm acompanhados de uma política cotidiana de auto-defesa das comunidades, que já existiam antes dos eventos do início desse ano, mas se aprofundam e ganham mais ativistas. Em Minneapolis, a organização patrulhas  para defender a população marginalizada das forças armadas do estado e documentar os abusos policiais não começa do zero agora, mas é construída a partir de experiências acumuladas após o assassinato de George Floyd em 2020 [11]. Enquanto a organização segue principalmente a nível dos bairros, já há esforços de colaboração entre organizadores de diferentes cidades, como um grupo de patrulha de Chicago ajudando a treinar ativistas de Minneapolis [12], esforços de unificação nesse sentido são essenciais para os próximos passos do movimento.

 Um importante setor da linha de frente dos esforços de auto-defesa são professoras e trabalhadoras da educação. Desde que Trump retirou a restrição para detenções em escolas essas se tornaram mais um campo de batalha, com distritos de Minneapolis reportando uma queda em até 50% de frequência dos alunos por medo de serem detidos [13]. As escolas tiveram que se adaptar para garantir a segurança das crianças, uma delas relata ter protocolos similares aos de uma emergência com um atirador ativo para caso agentes do ICE entrem nas premissas [14].

 Conforme o apoio à reivindicação pelo fim do ICE e das detenções se amplia e atinge mais setores da sociedade, também ganham visibilidade as declarações de artistas. O ator Giancarlo Esposito, conhecido por seu papel na série Breaking Bad, está entre os que demonstraram apoio à luta, afirmando “é hora de uma revolução” [15]. A noite dos Grammys, um dos principais eventos de premiação da indústria da música, também foi marcada por demonstrações de apoio aos imigrantes; com o cantor Bad Bunny, nascido em Porto Rico, ganhador de álbum do ano e atração principal do show do intervalo do Super Bowl este ano, afirmando “Nós não somos selvagens. Nós não somos animais. Nós não somos aliens. Nós somos humanos, e somos americanos”, e a cantora Billie Eilish afirmando “Ninguém é ilegal em terras roubadas”, além de diversos outros utilizando broches com os dizeres “ICE out” (“fora ICE”) [16].

O GOVERNO NA DEFENSIVA

 Diante da forte resposta por baixo ao nível de barbárie gerado pela política anti-imigração de Donald Trump, ele e seus aliados responderam como sempre fazem: aumentando o tom das ameaças; suas ações, contudo, demonstram a fragilização do governo.

 A Casa Branca e o Departamento de Segurança Interna, além de adotarem o discurso falacioso de que os assassinatos de Good e Pretti foram ações de auto-defesa contra terroristas, se recusam a retirar completamente o ICE de Minnesota, contando com o apoio da juíza Katherine Menendez para tal. Para além disso, ameaçaram enviar o exército para reprimir os protestos, se utilizando do Ato de Insurreição (“Insurrection Act”), uma lei de 1807 raramente utilizada que permite o presidente se utilizar de militares na ativa para a repressão no interior do país em casos de ameaças contra o governo [17] [18].

 Ainda assim, foram forçados a recuar. Após o assassinato de Pretti, o comandante da Patrulha de Fronteira Gregory Bovino foi removido do posto de “comandante em missão especial”, sendo realocado para seu posto anterior na Califórnia [19]. Bovino foi uma figura importante que ascendeu sob Trump e se tornou o rosto das operações em Minneapolis [20], tornando sua remoção um fato a ser notado. Tom Homan, que o substituiu no cargo, anunciou no dia quatro de fevereiro a retirada de 700 agentes de Minnesota [21]. Essa deve ser entendida como uma importante vitória do movimento, ainda que não seja definitiva, e não podemos parar até que o último agente seja retirado e o ICE seja dissolvido.

 Certamente, o governo sente o efeito do aumento dos índices de rejeição, com uma pesquisa realizada pelo New York Times apontando 56% de desaprovação em janeiro deste ano. Quando questionados sobre temas específicos da gestão, os eleitores entrevistados apontaram 58% de desaprovação à política sobre imigração, 64% de desaprovação no tema do custo de vida, e o maior índice de desaprovação, 66%, em relação ao caso Epstein [22].

 Trump, que já sofreu uma derrota em seu primeiro mandato pela resposta do movimento de massas ao assassinato de George Floyd, pode estar diante de mais uma derrota. Mais um sintoma disso está nos resultados da eleição especial que ocorreu no Texas, em que um Democrata ganhou o assento para o Senado em um distrito historicamente Republicano, com mais de 14 pontos de vantagem [23].

 O Partido Democrata, por sua vez, também sente a pressão debaixo para responder à situação. Por isso, além de apelar a Trump para que tome medidas mais moderadas, alguns estados liderados por Democratas buscam medidas legais para limitar a ação dos agentes do ICE em seu território, como Massachusetts, buscando estabelecer zonas seguras ao redor de escolas, igrejas e hospitais, e Illinois, buscando expandir a lei que limita a cooperação da polícia local com o ICE [24]. Isso é, em parte, para manter a estabilidade de seus próprios governos frente aos processos de luta, mas também porque o Partido Democrata cumpre um papel específico para a defesa do regime democrático-burguês nos EUA.

 Assim como fizeram com o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), o partido busca conter os processos de mobilização, impedir que avancem e se radicalizem, e canalizá-los para dentro das eleições. Agora, aproximam-se as eleições de meio termo (que ocorrem na metade do mandato presidencial, para preencher assentos na Câmara de Representantes, no Senado e em cargos estaduais), e está ai o destino e o limite que os Democratas querem dar às lutas.

 Há ainda a possibilidade de tomarem medidas mas drásticas contra Trump, para assegurar a estabilidade do regime, tentando um processo de impeachment. O próprio Trump, em um apelo que fez aos Republicanos, prevê que caso seu partido não saia vitorioso das eleições de meio termo, poderá ser alvo de um impeachment [25]. Os elementos para isso estão não apenas na política sobre a imigração, mas na invasão da Venezuela, que gerou questionamentos por membros do Congresso por não cumprir os requisitos constitucionais de aprovação congressual para operações deste tipo, ou seja, passou por cima das instâncias do próprio governo [26], e pelos questionamentos morais levantados pelo envolvimento do presidente no caso Epstein.

 O caso, que envolve uma rede de tráfico sexual e pedofilia e cita diversos nomes da burguesia e da política, recentemente teve mais milhões de arquivos divulgados, com Donald Trump sendo aparecendo mais de mil vezes [27]. O envolvimento dos ricos e poderosos em um escândalo de machismo e abusos sexuais com completa impunidade se tornou um símbolo da hipocrisia da justiça burguesa, e, como citado anteriormente, é um dos pontos em que Trump encontra maior reprovação da população estadunidense, mais um ponto de fragilidade.

PRÓXIMOS PASSOS

 Com o governo fragilizado, já sendo forçado a recuar, como demonstra a retirada de centenas de agentes da região, e o movimento cada vez mais forte, é essencial seguir o caminho apontado pela greve geral de Minnesota. Com a classe trabalhadora organizada e um processo de lutas unificado a nível nacional, juntamente às iniciativas de auto-defesa, prosseguindo a nível local e se fortalecendo a partir de coordenações a nível estadual e nacional, é possível impor uma derrota definitiva a Trump.

 É importante, contudo, estar alerta ao risco representado pelo Partido Democrata, que buscará domesticar as lutas, impedir que fujam de seu controle, e canalizá-las para dentro dos limites da institucionalidade. A defesa incondicional dos imigrantes se choca não apenas com o governo Trump, mas com o próprio projeto capitalista e imperialista dos Estados Unidos, no qual o imigrante cabe apenas de mão de obra barata, rebaixando o nível salarial de toda a classe e servindo de bode expiatório nos momentos de crise. As respostas profundas que precisamos para superar esse projeto não poderão vir de dentro de um de seus pilares, apenas de organizações independentes da classe trabalhadora.

Fora Trump!

Dissolver o ICE!

Libertação imediata dos imigrantes em centros de detenção!

Direito de reingresso a todos os deportados!

Green-Card imediato para todos os imigrantes nos EUA!

Migrar é um direito: pelo fim dos muros e patrulhas nas fronteiras!

Nenhuma confiança no partido democrata! Por novas lideranças independentes!

Referências:

[1] Leia mais em: https://corici.org/la-lucha-de-los-inmigrantes-en-el-corazon-del-imperialismo/

[2] Leia mais em: https://corici.org/justicia-por-renee-good-llego-la-hora-de-acabar-con-el-ice/

[3] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/24/tiroteio-ice-minneapolis.ghtml

[4] https://www.cnbc.com/2026/01/31/federal-judge-denies-bid-to-end-ice-operation-metro-surge-in-minnesota.html

[5] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/22/agentes-de-imigracao-dos-eua-detiveram-quatro-criancas-no-minnesota-dizem-escolas-locais.ghtml

[6] https://inthesetimes.com/article/minneapolis-renee-good-ice-shooting-labor-unions

[7] https://inthesetimes.com/article/minneapolis-minnesota-general-strike-trump-ice

[8] https://inthesetimes.com/article/labor-general-strike-minnesotans-ice-protest-trump-cbp

[9] https://cnnespanol.cnn.com/2026/01/31/eeuu/protestas-ice-ee-uu-minnesota-trump-trax

[10] https://www.npr.org/2026/01/31/nx-s1-5695197/as-winter-olympics-milan-protesters-call-for-ice-agents-to-leave-italy

[11] https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/20/minneapolis-organizes-trump-ice-crackdown

[12] Idem ao 11.

[13] https://www.latimes.com/politics/story/2026-02-02/inside-minneapolis-school-where-50-of-students-are-too-afraid-of-ice-to-show-up

[14] Idem ao 13.

[15] https://variety.com/2026/film/news/giancarlo-esposito-revolution-white-house-ice-1236643679/

[16] https://www.nbcnews.com/pop-culture/pop-culture-news/bad-bunny-opens-grammy-speech-calling-for-ice-out-rcna256994

[17] https://www.bbc.com/news/articles/c74v0pxg2nvo

[18] https://www.bbc.com/news/articles/c9qwez9zz7jo

[19] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/26/gregory-bovino-cargo.ghtml

[20] https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2026/01/26/gregory-bovino-o-rosto-da-truculencia-contra-imigrantes-em-minneapolis.ghtml

[21] https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/governo-trump-anuncia-retirada-de-700-agentes-de-imigracao-de-minnesota/

[22] https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/22/rejeicao-a-trump-aumenta-nos-eua-e-chega-a-56percent-diz-pesquisa-do-nyt.ghtml

[23] https://www.politico.com/news/2026/02/01/democrat-wins-a-reliably-republican-texas-state-senate-seat-stunning-gop-00759046

[24] https://www.npr.org/2026/02/02/nx-s1-5693121/how-state-officials-are-taking-action-against-federal-agents

[25] https://www.nbcnews.com/politics/2026-election/trump-predicts-impeachment-if-republicans-lose-2026-midterms-rcna252604

[26] https://www.cnbc.com/2026/01/03/trumps-maduro-venezuela-congress.html

[27] https://www.brasildefato.com.br/2026/02/02/abuso-ameacas-e-crimes-sexuais-por-que-o-caso-epstein-ainda-nao-derrubou-trump/

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