ENTREVISTA COM TRABALHADORES DEMITIDOS DA CORPUS INDAIATUBA

Na segunda e terça-feira de carnaval deste ano de 2026, os coletores de lixo da Corpus (empresa terceirizada contratada pela prefeitura de Indaiatuba) fizeram uma forte greve. Leia aqui.

O Voz Operária Socialista conversou com Ulisses e Zildo (nomes fictícios), que foram demitidos em meio à luta, para dar voz a esses trabalhadores, que são tão importantes quanto são invisibilizados.

VOS: O que motivou vocês a fazer essa greve?

Ulisses: A gente já faziaum tempo que tava todo mundo indignado. O principal na verdade foi o salário. Mas o ‘x’ da questão mesmo é falta de EPI, falta de caminhão para trabalhar. O nosso caminhão mesmo ficou uma semana pra arrumar o pneu e não arrumaram, a paralisação tinha acabado já.

Zildo: Falta de coletor, foi desgastando todo mundo porque tinha que trabalhar muito.

Ulisses: Isso, na semana antes [da greve] a gente trabalhou a semana inteira em 2 [coletores], saindo tarde da base porque não tinha caminhão.

Zildo: Você imagina chegar 9h da manhã pra começar a coletar ainda, sabendo que já acaba tarde no dia que você sai 6h10 da base. Aquilo ali já tava desgastando todo mundo. Chegava e não tinha coletor pra trabalhar. O certo é [trabalhar] em 4, mas nós trabalha em 3.

Aí você saía pra trabalhar, não tinha hora pra voltar. Acabava às vezes oito horas da noite, não tinha um auxílio janta pra você, não tinha uma água gelada pra tomar. Tinha que correr na rua pra pedir pra alguém, pra não ficar com fome ou com sede. E a firma só ligava, o encarregado, perguntar “e aí, acabou?”.

Ulisses: Sempre saía mais tarde, até dia leve.

Zildo: Chegava no aterro tinha que pegar uma fila enorme pra pesar o caminhão. Não tinha um banheiro pra usar. Tinha um banheiro na balança, mas a gente não podia usar. Tinha que ir lá embaixo, era longe, só descia de caminhão. Aí a gente ia no canavial lá em frente e usava. Ninguém merece, usar banheiro em mato.

Ulisses: Risco ali de ter uma cobra, não dá nem tempo de socorrer, no meio do mato, morre ali mesmo.

Zildo: Quando você se machucava ia no hospital, quando chegava lá [na empresa] o encarregado de cara feia… Até horário de almoço nós não fazia. Meio-dia eu tava ali correndo, aí acabou ali uma viagem, tem que comer um pão ali correndo, um guaraná e já voltava um caminhão, já tinha que sair correndo de novo. E pagava do bolso ou tinha que pedir pra alguém.

Mas a firma nunca viu isso, sempre quis descontar de nós, se chegasse atrasado descontava mas não via as horas que a gente passava a mais… Se parasse essa uma hora já ia perguntar por que que tava parando uma hora. Nunca parou pra fazer uma hora de almoço certinho, isso nunca existiu na coleta.

Ulisses: Descontava até o horário de almoço. Trabalhava e eles descontavam como se tivesse feito o horário de almoço. Desconta no holerite. Às vezes sem dinheiro, comia ali um pão seco mesmo, só pra não ficar de estômago vazio.

Como foi a organização da paralisação?

Ulisses: A gente combinou antes. A gente fez um grupo, se organizou e o pessoal, revoltado, foi falando as coisas, o que precisava melhorar.

Zildo: Numa semana no decorrer falou de montar o grupo. Deu certo, colocamos todo mundo, cada um dava sua opinião. Isso foi na sexta. A gente passou o fim de semana todo debatendo pra na segunda a gente chegar e parar.

Mas aí lógico, não tinha apoio do sindicato, a gente já sabia que não tinha apoio. Aí a gente foi de peito aberto debater com a empresa sobre o nosso salário, os nossos benefícios, a melhoria de coletor, de caminhão.

Foi uma chateação ver como nós não tem valor nenhum. Nunca teve. A gente que foi mandado embora sempre trabalhou muito, sempre ajudou a empresa. Eu já fiz dois turnos, já saí do meu turno e depois ainda fui até 1h da manhã, ajudando. A indignação ali era essa, de ficar sem valor nenhum ali. E se a gente não tivesse lutado ainda tinha ficado com uma justa causa.

Ulisses: Eu já cheguei a fazer 6 caminhões. E se nós não tira o lixo do chão? Você fala sim toda vez, o dia que fala um não você é a pior pessoa do mundo. Mas naquele dia chegou, ficou todo mundo lá pra fora e já tava todo mundo determinado mesmo. Foi forte.

Zildo: Só não foi mais forte o pessoal da noite não tava, senão [a empresa] ia ficar sem rumo, não tinha o que fazer. A gente só precisava dos coletores do dia e da noite juntos. Alguns tavam, outros só ficaram sabendo no dia… Teve gente que ficou com medo, uns puxam pra empresa… Todo mundo tem sua responsabilidade, mas se todo mundo pensar igual dá certo.

Os dois dias que nós fez eles já ficaram doidos, se fosse uma semana ali… Ia baixar prefeito, ia baixar todo mundo, ia ter que resolver de alguma forma. Eles ameaçaram com as justa causa, mas no segundo dia a gente ainda tava ali, tinha que retirar as justa causa. Na nossa cabeça ia até eles aumentar, mas não deu.

Ulisses: A cidade não tinha voltado até agora. Só que faltou um pouco de organização com o pessoal da noite. A gente não sabia se eles tavam trabalhando ou não. A gente só soube depois que teve um monte de gente que não saiu [para o trabalho].

Zildo: Nisso a gente falou “tomamos justa causa, vamos ter que entrar num acordo pra poder reverter”. Foi onde a gente conseguiu, mas sem querer né, não é o que a gente queria. Reverteu porque a gente pensou que ou revertia ou ia ficar no prejuízo. Tem conta pra pagar e tal, vamos reverter ou continuar, mas muita gente não quis continuar. A gente tava decidido, mas muitos que estavam ali não quis.

Como foi isso das demissões e como ficou a situação após a luta?

Zildo: Vários estavam na greve, mas eles especificaram quem eles queriam. No meu ver foi o nosso encarregado. Quem era linha de frente não foi difícil pra eles.

Ulisses: Eles veem nas filmagens né, saiu em todo lugar. Mas mesmo os outros eu acho que vão mandar embora depois. E agora a situação tá pior do que tava. Os novatos não aguentam o trampo, não é fácil. Não dá 50 reais o dia pra você correr no sol.

Zildo: Com 11 a menos ele tiveram que contratar gente que já foi mandada embora antes, que eles não costumam fazer isso. Mas 4 ou 5 caras não resolve. E a noite acaba com o cara, aí o pessoal não vem, precisa dos do dia, aí quando precisa de dia os da noite estão dormindo e não vão.

Se botar na ponta do lápis o salário e o benefício que eles pagam, qualquer um paga. E duro que tem gente que não põe na cabeça que outros lugares pagam igual, mas ficam se humilhando ali. A gente sabe que é muito dinheiro que eles [empresa] ganham, não perde nunca.

O coração da empresa é a coleta. O resto pode parar, mas a coleta não para nunca. Mesmo tendo multa a empresa preferiu parar e depois mandar a gente embora do que melhorar o salário.

Que lições desta luta vocês gostariam de deixar para os nossos leitores?

Zildo: Eu saio de cabeça erguida. Se precisar em outra empresa eu vou continuar brigando, porque quando eu entro é de cabeça mesmo, já sei o que pode acontecer, que pode mandar embora ou não, não sou de correr. Eu ficava com medo dos outros não irem [para a luta], mas eu sabia que eu ia.

Ulisses: Eu também, a mesma coisa. Já tava muito cansado de ficar sempre em 2, não ter caminhão… Tudo isso juntou…

Zildo: Isso estressa, causa você fazer briga, às vezes xingar alguém, perder a razão, tudo isso acumula na cabeça. E a coleta é estressante, ela acaba com o cara, se não tiver um psicológico bom ali, principalmente com o motorista, o cara fica doido. Coleta não é brinquedo não.

Mas digo que se for pras pessoas brigar pela melhoria deles, na empresa, qualquer empresa que entrar, ir de cabeça e brigar, sem medo, o cara tem que ir lá e brigar pelo emprego, pelas melhorias pro conjunto e não ter medo de empresa.

Dados importantes:

R$2,7 bilhões é o orçamento total do município de Indaiatuba, com por volta de 270mil habitantes;

R$100 milhões é o valor do contrato da Prefeitura de Indaiatuba com a Corpus para 10 meses este ano;

R$1.700 é o salário bruto na carteira dos coletores de lixo para uma jornada de trabalho de 44h semanais;

60 horas extras é a quantidade média que esses trabalhadores fazem por mês para conseguir pagar suas contas;

11 coletores e um motorista foram demitidos durante a greve, desrespeitando o direito de greve que a própria lei burguesa tem no papel.;

O sindicato que legalmente os representa, Sinditerceirizados, estava junto com a empresa no momento das demissões.

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