por Julian Ledezma
18 de maio de 2026: as multidões convocadas pela Central Operária Boliviana, pela Federação Sindical de Camponeses Tupak Katari de La Paz, pelas Federações de Professores Urbanos e Rurais de La Paz, a Federação dos Trabalhadores Industriais e outros setores, além da marcha “Pela Vida para Salvar a Bolívia” convocada pelo setor de Evo Morales, convergiram da cidade de El Alto e de outras zonas para a Praça Murillo, sede do governo e do Congresso boliviano, cercando a praça por cerca de quatro horas, em meio a confrontos com a polícia, que reprimiu duramente a mobilização. A consigna central: “Renúncia de Rodrigo Paz Pereira!”
O que se viveu nesse dia foi uma das consequências de um agudo processo de desgaste político do governo de Rodrigo Paz, seis meses após sua vitória eleitoral e posse em 22 de outubro de 2025.
Acúmulo do desgaste do governo de Paz
Desde sua posse, o governo de Rodrigo Paz vem aplicando medidas de ajuste, sob o pretexto de reverter a crise econômica, com uma orientação clara de favorecer o setor agroindustrial da oligarquia boliviana e transferindo o peso da crise para os trabalhadores e o povo empobrecido. Começou nomeando um gabinete ministerial com figuras vindas diretamente do setor agroindustrial; depois, anulou o imposto sobre grandes fortunas e retirou o subsídio à farinha, provocando o aumento do preço do pão, alimento básico da dieta popular; em dezembro retirou o subsídio aos combustíveis, encarecendo de forma generalizada o custo de vida da população trabalhadora; mas a pior parte da medida é que não garantiu gasolina de qualidade: desde essa data até hoje, foram relatados milhares de carros danificados pela gasolina, afetando especialmente os trabalhadores autônomos que prestam serviços de transporte público. Para completar, em 10 de abril promulgou a Lei 1720 de reconversão da propriedade agrária, abrindo as portas para a expropriação dos pequenos proprietários.
No entanto, desde os primeiros momentos, enfrentou a resposta organizada do movimento operário e popular.
Em janeiro, uma poderosa mobilização fez recuar uma série de medidas antipopulares que acompanhavam o aumento dos combustíveis; embora não tenha conseguido reverter o aumento, ela freou o governo em outras medidas. Entre março e abril, várias paralisações do transporte conseguiram comprometer o governo a indenizar os danos aos veículos causados pela má qualidade do combustível.
No mesmo dia em que Paz Pereira promulgou a Lei de Reconversão da Pequena Propriedade Agrária, partiu uma marcha dos indígenas do leste do país exigindo sua revogação; após uma caminhada de quase um mês, a marcha chegou a La Paz e conseguiu a revogação da lei.
No dia 1º de maio, a Central Obrera Boliviana convocou uma assembleia popular na cidade de El Alto, exigindo aumento salarial, anulação da Lei 1720, indenização pelos danos aos veículos e defesa das empresas estatais. A assembleia declarou greve geral por tempo indeterminado até que as reivindicações sejam atendidas ou, caso contrário, a renúncia de Rodrigo Paz, se ele não for capaz de resolver as reivindicações.
À convocação juntou-se também a Federação de Camponeses de La Paz, declarando o bloqueio de estradas no departamento e pedindo a renúncia de Paz Pereira. Enquanto isso, na região tropical de Cochabamba, as federações de produtores de coca lideradas por Evo Morales convocaram a “Marcha pela Vida para Salvar a Bolívia”, percorrendo a pé cerca de 300 km até a cidade de La Paz, marcha que chegou no dia 18 de maio.
A situação atual
Já são três semanas de mobilização, com epicentro no departamento de La Paz e, em particular, na cidade de El Alto, tendo como principal reivindicação a renúncia de Paz Pereira. Em sua tentativa de desarticular o governo vem firmando acordos setoriais: com os líderes dos professores urbanos e rurais, um bônus anual em vez de aumento salarial; com os indígenas do leste, a revogação da Lei 1720; com a Central Operária Regional de El Alto, um acordo para fornecimento de internet nas escolas de El Alto; e com os trabalhadores de transporte, acordos para indenização por danos aos veículos. Ao mesmo tempo, emitiu mandados de prisão contra o principal dirigente da COB, contra dirigentes da cidade de El Alto e dirigentes camponeses, acusando-os, entre outras coisas, de terrorismo, com ameaça de prisão com penas de 3 a 5 anos.
O país entrou em um processo de polarização; a mobilização concentra-se em La Paz e em alguns departamentos, por meio de bloqueios organizados pelo movimento camponês, no entanto, devido à falta de preparação, o restante do movimento operário ainda não adotou a medida da greve; também os professores, após o acordo de sua liderança, deixaram de participar em várias cidades, com algumas exceções como La Paz e Oruro, onde as bases rejeitaram o acordo e continuam mobilizadas.
Em geral, as classes médias das cidades exigem a declaração do estado de sítio e uma repressão violenta contra os manifestantes; por isso, em resposta, o governo emitiu mandados de prisão contra os dirigentes da COB.
A burguesia, em seu conjunto, se pronunciou em apoio ao governo; embora critiquem sua falta de capacidade, em geral apelam para a defesa da democracia e pela aplicação de repressão violenta contra os manifestantes.
Perspectivas
Nos próximos dias, é possível que se defina o rumo do conflito: por um lado, o aprofundamento da mobilização até conseguir a renúncia de Paz Pereira; para isso, será necessária a incorporação de todo o movimento operário e popular nas demais cidades, mas isso requer que a liderança assuma um papel mais decisivo na organização e no fortalecimento da ação, algo que, por enquanto, não está ocorrendo. Um elemento que não facilita o avanço nessa saída é: quem governará depois de Paz? As alternativas imediatas são: o vice-presidente Lara? A antecipação das eleições? Nesse contexto, a candidatura de Evo Morales? Mas, para isso, seria necessário reformular toda a estrutura jurídica que impede sua candidatura. O que também abre o risco de um governo de extrema direita. A falta desta clareza é um fator que impede uma maior integração do movimento operário e popular.
Outra possibilidade é que se tente impor uma repressão dura para forçar a retirada dos mobilizados, com o apoio das classes médias e dos partidos da burguesia, para o que será necessário recorrer a métodos violentos e causar muitas vítimas. Essa alternativa também significará um maior enfraquecimento do governo; por isso, por enquanto, o governo não se arrisca totalmente nessa saída, mas ela não pode ser descartada se sua sobrevivência depender dela.
A terceira possibilidade é uma saída negociada com os dirigentes, em troca de certas concessões em processos judiciais e concessões parciais em conquistas sociais. Atualmente, alguns setores da liderança se abriram para essa alternativa, mas saíram desgastados e sem o reconhecimento de suas bases.

