Xande
Durante décadas, trabalhadores saíam das fábricas com seus uniformes como símbolo de pertencimento e orgulho profissional. Hoje, essa imagem já não reflete a realidade da maior parte da classe operária brasileira. Embora o trabalho fabril, muitas vezes invisibilizado em artigos, análises e pesquisas, continue sustentado por pessoas com experiência, saber e cultura, ele também segue marcado por um cansaço profundo que raramente ganha espaço no debate público.
Em 2025, na média, tivemos um afastamento do trabalho por adoecimento a cada 8 segundos. Os acidentes e mortes decorrentes do trabalho cresceram após a pandemia; no primeiro semestre de 2025, mais de 1,6 mil trabalhadores morreram por acidentes de trabalho, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em média tivemos uma morte no trabalho a cada 05h29m.
A exaustão da classe trabalhadora torna-se evidente diante de salários insuficientes, falta de perspectivas de ascensão social e sensação permanente de estagnação. Dívidas crescentes comprometem não apenas a estabilidade financeira, mas também a dignidade e a saúde emocional de milhões de pessoas. Projetos são adiados e sonhos básicos — como a casa própria — tornam-se cada vez mais inalcançáveis.
Nesse cenário, fortalece-se a ideologia do individualismo, expressa em discursos como “cada um por si”, “seja seu próprio patrão” ou “empreender é a solução”. Ideias que ignoram as condições estruturais que limitam as oportunidades da maioria e acabam responsabilizando o indivíduo por fracassos que são, em grande parte, coletivos e sistêmicos.
Sem perspectivas reais de melhoria, muitos trabalhadores recorrem a formas de escape prejudiciais, como endividamento, apostas online e consumo excessivo de álcool. O fato de metade dos adultos brasileiros consumir bebidas alcoólicas — com parcela significativa admitindo exageros — evidencia um problema social preocupante. Ao mesmo tempo, jornadas extenuantes reduzem drasticamente o tempo disponível para lazer, descanso e convivência familiar, tornando a sobrecarga uma condição normalizada. Nesse contexto, cresce o apoio ao fim da escala de trabalho seis por um, visto como tentativa de recuperar qualidade de vida.
Não podemos deixar de denunciar essa realidade que o capitalismo nos impõe, sem olhar para as particularidades enfrentadas pelas mulheres, especialmente as mães, que acumulam dupla jornada sem rede de apoio. Além do trabalho fora de casa, recaem sobre elas tarefas domésticas, cuidados com os filhos, compromissos escolares e médicos, alimentação e a constante preocupação com quem cuidará das crianças enquanto trabalham.
Essa sobrecarga é profundamente adoecedora, tanto física quanto psicologicamente. A pressão para dar conta de tudo, somada aos baixos salários, gera frustração, ansiedade e sentimento de culpa pela ausência na criação dos filhos. Soma-se a isso o desgaste provocado por longos deslocamentos em transportes públicos precários.
Os trabalhadores devem se unir, se organizar no local de trabalho e fortalecer a capacidade de luta, para enfrentar patrões e governos que sustentam a estrutura de opressão e exploração da ordem social burguesa vigente, avançando na construção de uma nova realidade em que os operários assumam o controle da produção e decidam coletivamente os rumos do trabalho e da sociedade.

