PRECISAMOS TRABALHAR TANTO?

Os avanços tecnológicos e a jornada de trabalho

O anseio pelo fim da escala 6×1 surgiu da insatisfação de amplos setores da classe trabalhadora brasileira que não possuem um fim de semana inteiro sem trabalhar. Além dessas pessoas, existem várias outras em situações também muito ruins: 6×2, 12×36, 7×0 ou mesmo o 10×1 que veio à tona na rede Zaffari em Porto Alegre.

Entretanto, mesmo para quem trabalha 5×2 (de segunda a sexta) a vida é corrida quando se faz 44 horas de trabalho semanais, que é o limite legal no Brasil. Sem falar nas horas extras, que às vezes são impostas pelas empresas, ou às vezes são impostas pela necessidade financeira de trabalhadoras e trabalhadores.

Na prática a nossa vida é organizada em função do trabalho, ou seja, de garantir o lucro do patrão em troca de um salário que mal chega no fim do mês. E a cada dia que passa também sobra mais e mais adoecimento, físico e mental.

A grande questão que fica desses debates sobre jornada de trabalho é: será mesmo que é necessário dedicar tantas horas da nossa vida ao trabalho? Não seria possível organizar as coisas de outra maneira?

Sempre foi assim?

O ser humano é o único ser vivo que trabalha na natureza. Trabalhar significa modificar a natureza de acordo com um plano prévio para atender às suas necessidades. Essa é a grande diferença entre nós e os outros animais. Deste ponto de vista, o trabalho existe desde que existe o ser humano e seguirá existindo no futuro.

Desde os primórdios nas cavernas até os dias de hoje com toda a tecnologia existente, a divisão do trabalho necessário para a manutenção da nossa espécie se deu de um jeito diferente em cada momento histórico.

O que vai mudando ao longo do tempo é o que chamamos de modo de produção: é a forma como a sociedade está organizada para o trabalho, como são as relações de produção. Centralmente em relação à posse ou não dos meios de produção (ferramentas, prédios, máquinas etc.) e qual a relação que cada setor da sociedade (as classes sociais) vai ter com esses meios de produção.

Nas sociedades chamadas “primitivas” não havia dono exclusivo de nada: tanto a natureza quanto os bens produzidos eram de propriedade comum dos membros daquela sociedade. Não havia hierarquia social com base na posse de coisas (ou pessoas). Por isso, o que determinava a divisão do trabalho não eram interesses puramente individuais ou de grupos separados, mas sim as necessidades coletivas de cada população.

O ser humano que nós somos hoje (Homo sapiens) viveu a maior parte da sua história (que tem em torno de 300 mil anos) desta forma. Assim fomos evoluindo, conhecendo a natureza e desenvolvendo tecnologias (agricultura, pecuária, o fogo, a roda, a escrita, ferramentas…).

Graças a esses avanços tecnológicos nós fomos melhorando as condições de vida, passando a viver mais e com mais qualidade, aprendendo a tratar doenças etc. Ainda era uma vida muito dura perante o que conhecemos hoje, uma vida de escassez sem alternativa imediata, na qual qualquer pequeno imprevisto poderia significar o extermínio de todo um povo.

Foram justamente essas conquistas técnicas que possibilitaram começar a depender menos só do que estava disponível diretamente na natureza. O ser humano conseguiu aumentar a produtividade (quantidade de bens produzidos por pessoa) a ponto de começar a sobrar.

Se o que está sendo produzido gera uma sobra, um excedente, isso significa que não precisa que todo mundo trabalhe. Uma parte da sociedade pode viver sem trabalhar, pois o trabalho dos demais serve à sua subsistência.[1]

A partir desse período, que é o surgimento da propriedade privada dos meios de produção, em torno de 10mil anos atrás, a sociedade começa a se organizar de acordo com a hierarquia que temos hoje: quem é dono das coisas manda, quem não é dono obedece. Quem não é dono tem que trabalhar para garantir a sobrevivência de todos, sobretudo dos donos, que não trabalham. Por bem ou por mal.

Assim foi nas sociedades escravagistas, no feudalismo e hoje no capitalismo. Cada uma com suas particularidades, mas todas elas organizando as pessoas que trabalham em função dos interesses daqueles que vivem do trabalho alheio.

É possível ser diferente?

Tudo está sempre em constante mudança. Nada “sempre foi assim” e nada “vai ser sempre assim”. A questão é compreender como as coisas funcionam para vermos como elas podem vir a funcionar. E lutar por essas mudanças contra aqueles que não querem que haja mudanças.

A sociedade atual, considerada como um todo, não vive em escassez. O que há é o oposto: a produtividade do trabalho hoje dá conta de produzir para o conjunto da população mundial. Um exemplo é o dos alimentos: a humanidade produz alimentos suficientes para as necessidades de 10 bilhões de pessoas. Mas num mundo de mais de 8 bilhões de pessoas quase 1 bilhão passa fome todos os anos.

Em outras palavras, o maior problema não é de técnica. As tecnologias e a produtividade seguem avançando, e o ser humano já possui conhecimento e desenvolvimento suficientes para eliminar muitos dos sofrimentos que somos obrigados a vivenciar para sobreviver. Mas, como vemos todos os dias, isso não acontece.

O tema da jornada de trabalho é mais um ótimo exemplo sobre isso. Se temos uma produção mundial de todos os bens existentes para atender à atual quantidade de pessoas na Terra, por que não alocarmos as pessoas sem trabalho em alguma atividade e redistribuirmos as horas de trabalho necessárias para dar conta dessa produção? Sem falar nas tantas necessidades de se superar os limites atuais.

O mesmo podemos pensar para outras tecnologias. Robôs poderiam ser muito mais utilizados para executar atividades que são danosas para o ser humano, realocando as pessoas para outras tarefas. A IA acelera em muito o desenvolvimento de muita coisa, aumentando a produtividade em uma série de setores econômicos que podem atender a mais necessidades, ou liberar pessoas para outros trabalhos.

Por que não fazem assim?

Entretanto não é o que vemos. Quando uma fábrica robotiza um setor ela reduz enormemente a quantidade de trabalhadores nesse setor e demite essas pessoas que não lhe servem mais. Quando se implementa de maneira ampla a IA também se elimina postos de trabalho.

Ainda que haja novos postos ligados diretamente às novas tecnologias, os patrões estão jogando o jogo do capitalismo: o maior lucro possível no menor tempo possível. Por isso pensam nas novas tecnologias como meios para baratear rapidamente seus custos operacionais, independente das consequências humanas, para o sustento de trabalhadoras e trabalhadores demitidos.[2]

Essas tecnologias, por si só, não são boas ou ruins. A questão é na mão de quem estão, a serviço de quem. Todos os avanços técnicos trazidos ao mundo pela burguesia vieram e seguem vindo no sentido de ampliar seus lucros, ampliando a exploração da classe trabalhadora.

Vai ser sempre assim?

Desenvolver as forças produtivas significa trazer melhores condições de vida para as pessoas. Só que o que mais vemos é o desenvolvimento da técnica sendo acompanhado de exploração e opressão sobre a maioria da população mundial, bem como de desequilíbrio crescente no meio ambiente. As próprias bases para a existência da espécie humana na Terra estão questionadas.

Sem falar no desenvolvimento de forças destrutivas: a situação de estagnação do capitalismo, somada à necessidade de expansão do capital, está levando a disputas cada vez maiores entre setores da burguesia. Nesses momentos o enfrentamento político tende a levar a conflitos militares, que estão se ampliando.

Isso mostra o choque entre o desenvolvimento das forças produtivas (o ser humano, com seu conhecimento, as ferramentas desenvolvidas e a natureza da qual faz parte) e as relações de produção (como estão organizadas aquelas forças em termos de propriedade, como se dá a produção e a distribuição do que é produzido).

Numa sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção, os proprietários mandam, são eles que detém o poder. Por isso impõem à sociedade que funcione de acordo com os seus interesses. E no capitalismo o interesse máximo, o sangue que corre nas veias deste sistema, é o lucro. Essa é a necessidade de sobrevivência dos patrões e é o que eles têm a nos oferecer.

Por isso nós nos colocamos como parte da luta contra a escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho sem redução nos salários. Não podemos aceitar que as nossas necessidades sejam jogadas na lata do lixo, nem que sejam usadas como populismo eleitoreiro, levando ao engano logo adiante. Essas duas vertentes estão vindo com tudo no cenário nacional, através do governo Lula e da sua oposição de direita, com ou sem Bolsonaros.

Só que, ao mesmo tempo, queremos levar esse debate mais adiante com você trabalhadora e trabalhador que nos acompanha. Este enfrentamento precisa estar ligado a outras demandas que temos para que sua conquista realmente signifique uma vitória.

Um problema é o dos salários. Não basta que a redução de jornada seja sem redução de salários. Precisamos lutar por um aumento geral nos salários. Do contrário o tempo livre que conquistarmos vai acabar sendo usado por amplos setores da nossa classe trabalhadora para arrumar outro emprego, seja ele com carteira assinada ou um bico. Os salários estão muito baixos, gerando grande pressão para muita gente ter a necessidade de trabalhar ainda mais para dar conta dos gastos.

Outro problema é o que comentamos no início do texto: no capitalismo a nossa vida é ordenada pela necessidade de lucros dos patrões. Nesse sentido não é possível falar em vida além do trabalho caso não destruamos este sistema. Só com uma sociedade que funcione de maneira planejada em nível mundial, organizando o trabalho necessário de maneira verdadeiramente racional e democrática, pode nos dar vida de verdade, desenvolvimento humano, relações humanas.

Isso significa que precisamos de um mundo onde todas as pessoas trabalhem e tenham acesso aos frutos desse trabalho. Uma sociedade que faça produtos para atender às necessidades humanas, não essa produção de mercadorias, cujo objetivo é atender ao tal do “mercado”.

Nossa meta deve ser uma sociedade onde cada ser humano trabalhe de acordo com as suas possibilidades e receba de volta da sociedade de acordo com as suas necessidades. Esta é a definição que deu Karl Marx sobre o que é uma sociedade comunista.

Como se vê, é bastante distante das distorções canalhas feitas conscientemente pelos setores mais à direita no espectro político. Bem como é distante do que divulgam os detratores da dita “esquerda”, que defendem os regimes e governos de países como China, Cuba ou Venezuela, como se fossem comunistas.

A tarefa não é simples e não é rápida. Mas é necessária, é de vida ou morte para nós, classe trabalhadora. E por que não dizer até mesmo para a humanidade. É a tarefa à qual nós da VOS e da CORI-QI nos dedicamos e gostaríamos que você viesse lutar junto!


[1] Para compreender melhor este tema recomendamos a leitura do pequeno livro “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels. Disponível em https://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/index.htm

[2] Outra consequência desconsiderada é que, no longo prazo, aumentar a automação é um elemento que empurra a taxa de lucros para baixo. Não é objetivo deste texto entrar neste tema, mas para quem interessar deve estudar sobre a Composição Orgânica do Capital e sobre a Lei da Tendência à Queda da Taxa de Lucro, temas tratados por Marx em O Capital.

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