o dia de lutas histórico e os próximos passos
Por Debbie Leite
Pela terceira vez as massas insatisfeiras com o governo Trump atenderam o chamado do Sem Reis (“No Kings”) e tomou as ruas de norte a sul do país, em atos ainda maiores que os anteriores. Junto às pautas que já faziam parte do movimento, como acabar com o aumento do custo de vida, o autoritarismo e as políticas anti-imigração, soma-se agora a demanda pelo fim da guerra ao Irã e das agressões imperialistas contra Venezuela e Cuba.
Essa foi uma demonstração de força da classe diante de um governo em crise. A perspectiva de derrubá-lo está colocada, e devemos ficar atentos ao prosseguimento das lutas, a construção de um forte 1º de maio, avanços na organização independente da classe trabalhadora e sua firmeza diante das ilusões eleitorais.
Mobilização histórica
Os atos massivos do dia 28 de março de 2026 foram a culminação de processos de lutas anteriores, com uma dinâmica de crescimento que não dá sinais de desacelerar. O primeiro Dia Sem Reis aconteceu em junho de 2025, apenas seis meses após a posse de Trump, atraindo cerca de cinco milhões de manifestantes em mais de duas mil cidades [1]. A escalada das políticas de perseguição, apreensão e deportação de imigrantes desde então inflamou ainda mais revolta popular, e o segundo Dia Sem Reis, em outubro de 2025, contou com cerca de 7 milhões de manifestantes [2].
Entre o final de 2025 e o início de 2026 as lutas continuaram, com ações e organização local a partir dos bairros para enfrentar o ICE; o que dá um novo salto a partir do assassinato de Renee Good e Alex Pretti. As “cidades gêmeas” de Minnesota, Minneapolis e Saint Paul, se tornaram então o centro dos enfrentamentos, organizando uma greve geral em janeiro.
A classe trabalhadora também esteve se mobilizando a partir de seus locais de trabalho, levantando reivindicações próprias. Os trabalhadores da unidade de processamento de carne da JBS, em Colorado, estão entrando em sua terceira semana de greve; a primeira greve da categoria em quatro décadas, com mais de três mil trabalhadores cruzando os braços no dia 16 de março, exigindo melhores salários e segurança no trabalho, enfrentando desde então as táticas de intimidação da empresa [3]. Vimos também uma histórica greve de enfermeiras em Nova York, durando 41 dias [4], e uma paralisação de uma semana em uma das maiores empresas contratadas para construção naval para a marinha dos Estados Unidos [5], como apenas alguns exemplos das lutas nas categorias nos últimos meses.
As agressões dos Estados Unidos contra Venezuela, em janeiro, e contra o Irã, em fevereiro, também foram respondidas nas ruas em diversas cidades pelo país.
Assim, o terceiro Dia Sem Reis reflete esse acirramento da luta de classes nesse período, atingindo o maior número de pessoas e cidades envolvidas. Segundo o 50501, um dos organizadores do movimento, foram 8 milhões de manifestantes espalhados por mais de três mil cidades [6].
O principal ato foi em Minnesota, onde o músico Bruce Springsteen homenagou as vítimas do ICE em frente a uma faixa que lia “A revolução começa em Minneapolis” [7]. Na capital, em Washington, os manifestantes foram até o local de residência de Stephen Miller, braço direito de Trump na política de deportações, e em Palm Beach passaram em frente a Mar-a-Lago, propriedade de Donald Trump [8]. Os lutadores em Los Angeles e em Portland enfrentaram repressão policial quando protestaram em frente a centros de detenções nas cidades [9]. Outras cidades estadunidenses que tiveram grandes concentrações foram Nova York, Filadélfia e Chicago. Houveram ainda protestos internacionais, em cidades como Roma, Paris e Londres.
As lutas não ficaram restritas aos principais centros urbanos. Em um importante indício da ampliação do setor social que está em movimento, os organizadores do Dia Sem Reis apontam que 600 novas localidades participaram do dia em março, principalmente em cidades pequenas e áreas rurais [10]. Quase metade dos protestos ocorreram em áreas tradicionalmente republicanas, atraindo milhares em estados como Texas, Florida e Ohio [11].
O crescimento da mobilização se deve, em parte, à oposição popular contra a guerra de Estados Unidos e Israel ao Irã, iniciada em fevereiro. Desde o primeiro ataque, a política de guerra encontrou rejeição na maior parte da população, e mesmo em um setor minoritário de eleitores republicanos, e o desgaste só aumenta conforme a guerra se prolonga. Em uma declaração, o movimento 50501 afirma sua posição sobre a guerra, “Esses ataques são um crime contra o povo iraniano, mais um obstáculo à autodeterminação do Irã e mais um exemplo de um abuso autoritário escandaloso e sem controle.” [12], e o chamado do ato passou a incluir esta pauta, tornando-se “Sem ICE! Sem Guerra! Sem Reis!” (“No ICE! No War! No Kings!”).
A guerra aprofunda outra questão que já estava no coração da insatisfação dos trabalhadores atualmente, que é o custo de vida. O material de políticas econômicas produzido movimento May Day Strong traz um dado emblemático disso: três a cada cinco estadunidenses não tem economias suficientes para cobrir uma despesa de 2 mil dólares, de forma que uma única ida inesperada ao hospital pode ser suficiente para colocar uma família inteira em dívida [13].
Agora, com o conflito no Irã, o preço do combustível aumenta, tendo consequências em toda a economia, e os gastos militares despertam raiva; como colocado por uma ativista entrevistada pelo The Guardian no protesto em Washington: “Isso está acontecendo enquanto muitos americanos não conseguem pagar por moradia, leite, educação ou saúde. Os preços continuam a subir enquanto estamos lutando as guerras de Israel” [14].
A política anti-imigrantes segue sendo mais um grande motivo que leva os trabalhadores às ruas, assim como as tendências autoritárias do governo Trump. Exemplos deste autoritarismo são a expansão das ações unilaterais do presidente, passando por cima das demais instâncias governamentais; o envio da Guarda Nacional para agir internamente nas cidades, e mais recentemente a ordem executiva buscando limitar a possibilidade dos eleitores enviarem seus votos em cédulas via correio, um grave ataque anti-democrático [15].
Tudo isso resulta em um índice de aprovação extramente baixo para Trump, de apenas 36% [16]. Com isso, a antecipação aumenta para as eleições de meio termo, que apontam para a possibilidade dos republicanos perderem a maioria no Congresso, deixando o governo Trump em uma posição ainda mais débil.
Sendo assim, não surpreende que políticos do Partido Democrata, em especial aqueles que pretendem concorrer nas eleições, fizeram aparições e falas nos atos do dia 28, buscando construir um palanque para falar diretamente com os opositores de Trump e conquistar seus votos; se depender deles, esse movimento tem uma data de conclusão, e essa é a eleição em novembro. Já para nós, socialistas, conforme o movimento avança, a cédula democrata não pode ser a linha de chegada; manter a independência política, seguir em luta e apontar para horizontes programáticos que vão para além dos limites do regime será fundamental.
O caminho pela frente
Após um dia vitorioso de mobilizações em março, o próximo passo está colocado: a construção de um grande 1º de maio. Esse tem o potencial de ser ainda mais forte, sendo um dia de lutas internacional, quando os trabalhadores de diversas regiões também estarão protestando contra a intervenção e exploração do imperialismo estadunidense em seus próprios países.
Um chamado, que está sendo divulgado pelas mesmas organizações que chamaram o Dia Sem Reis, coloca a bandeira “trabalhadores acima de bilionários” (“workers over billionaires”) [17], chamando a atenção para a divisão entre as classes e a desiguadade socio-econômica, com uma pequena elite que enriquece cada vez mais enquanto as massas trabalhadoras sofrem com o aumento do custo de vida, o desemprego ou emprego sob condições precárias e baixos salários. Um mapa no site do No Kings mostra dezenas de eventos já marcados para o dia de costa a costa dos Estados Unidos, com nomes como o mencionado “Trabalhadores acima de bilionários” assim como “Sem ICE, sem guerra” e “Não à ocupação da Venezuela, não à ocupação de nossas cidades” [18]. Para além dos protestos, esse está sendo chamado como um dia de paralisação da atividade econômica, com o mote “sem escola, sem trabalho, sem compras”.
A organização May Day Strong cita como inspiração a mobilização do 1º de maio de 2006, também chamado de “dia sem imigrante”, que buscou demonstrar a importância da população imigrante através de um boicote unificado ao trabalho, escolas e comércio, com protestos acontecendo ao redor do país. Entre as pautas levantadas estão: “Proteger e defender o Medicaid, a Seguridade Social e outros programas para os trabalhadores; escolas totalmente financiadas, e saúde e moradia para todos; acabar com os ataques a imigrantes, pessoas negras, indígenas, trans e todas as nossas comunidades; investir nas pessoas, não em guerras” [19].
Para que isso seja efetivo, é necessário avançar na ação organizada da classe trabalhadora, e dos operários e operárias em especial. Uma série de sindicatos já participou do chamado pelo Dia Sem Reis, mas a organização dos trabalhadores a partir de seus locais de trabalho e categorias ainda há muito que avançar, inclusive enfrentando as táticas de intimidação e desorganização dos patrões. Para além da organização a nível sindical, é essencial dar um passo à frente na organização política da classe.
O futuro das lutas não precisa ficar refém dos candidatos democratas; os lutadores devem poder apresentar suas próprias candidaturas independentes, assim como manter perspectivas que vão para além das eleições. Se trata, afinal, de um sistema eleitoral extremamente injusto, uma falsa democracia, a começar pelo fato de que os milhares de imigrantes sem documentação que residem no país, trabalham e são parte importante de suas comunidades, não tem voz; além do fato de que os verdadeiros controladores do processo eleitoral são os bilionários, que fazem “doações” (que são mais como investimentos) para candidatos republicanos e democratas.
O governo Trump se equilibra à beira de um precipício, o movimento dos trabalhadores deve dar o empurrão final. Mais do que ser deposto, Trump, assim como seu vice JD Vance e seus ministros, devem ser investigados e punidos por seus crimes, cometidos dentro e fora do ofício, como o envolvimento no caso Epstein.
É necessário construir uma alternativa de poder nas mãos dos trabalhadores; para impor o fim da guerra e o fim do ICE, para reorganizar a economia de acordo com suas necessidades, acabar com os gastos militares do imperialismo e com a lógica do lucro acima da vida, garantindo saúde, moradia e educação para todos.
FONTES
[1] https://www.npr.org/2025/06/14/nx-s1-5432708/no-kings-protests-military-parade
[2] https://www.aljazeera.com/gallery/2025/10/19/photos-millions-of-us-protesters-hold-anti-trump-no-kings-rallies
[3] https://www.cpr.org/2026/03/27/jbs-meatpacking-strike-third-week/
[4] https://apnews.com/article/nursing-strike-newyorkpresbyterian-vote-37afc190fcad17ab71d4dbe755487881
[5] https://www.washingtonpost.com/business/2026/03/28/shipyard-strike-maine-bath-iron-works/18d0acde-2ad7-11f1-a0f2-3ba4c9fe08ac_story.html
[6] https://www.instagram.com/p/DWcrXTcj5KL/
[7] https://www.youtube.com/watch?v=E1EppPc2c4A
[8] https://www.nytimes.com/2026/03/28/us/no-kings-trump-iran-immigration-minnesota.html?searchResultPosition=6
[9] https://www.nytimes.com/2026/03/28/us/no-kings-protest-photos-videos.html?searchResultPosition=4
[10] Idem ao 6.
[11] https://edition.cnn.com/2026/03/28/us/live-news/no-kings-protests-03-28-26
[12] https://www.fiftyfifty.one/post/50501-demands-end-to-another-forever-war-organizes-iran-in-focus-mass-call-today-at-7-pm-et
[13] https://static1.squarespace.com/static/6813b6316bc2bb060f4b448a/t/699f1f40f833db6c40664947/1772035910296/Affordability+Agenda
[14] https://www.theguardian.com/us-news/2026/mar/28/no-kings-protests-trump
[15] https://edition.cnn.com/2026/03/31/politics/mail-in-voting-trump-executive-order
[16] https://www.economist.com/interactive/trump-approval-tracker
[17] https://www.instagram.com/p/DWfDbsAjQWo/?img_index=2
[18] https://www.nokings.org/whats-next#mobilizations
[19] https://maydaystrong.org/

