Direção VOS
A Voz Operária Socialista apresenta nosso camarada Frodo, operário metalúrgico na cidade de Indaiatuba há mais de quinze anos, como candidato a deputado federal pelo estado de São Paulo, pela legenda do PSTU. Somamo-nos a esta campanha com nossos acordos e com nossas diferenças, e passamos a explicar aqui os dois elementos.
Por que chamamos a votar em Hertz Dias e nas candidaturas majoritárias do PSTU
Existe hoje no Brasil, no movimento operário e popular, uma fronteira, e ela não passa pelo tamanho dos partidos nem pela simpatia entre militantes. Passa por uma pergunta: você tem independência frente à burguesia ou é seu aliado?
De um lado dessa fronteira estão o PT, que governa com Alckmin, com o centrão, com o agronegócio e com os bancos, e o PSOL, que sustenta esse governo por dentro e por fora. Do outro lado está quem se recusa. E a lista de quem se recusa, em 2026, é curta.
O manifesto do PSTU e de Hertz Dias está do lado correto dessa fronteira, e diz por quê com todas as letras. Diz que o governo Lula não é alternativa, que mantém o arcabouço fiscal e a usura da dívida, que preserva os lucros dos bilionários e submete o país ao imperialismo. Rejeita a estratégia do “mal menor” e cobra o seu preço: desmobilização, desorganização e o espaço aberto para o crescimento da extrema direita. Diz que a candidatura é independente dos patrões e contra as alianças de classe do PT e do PSOL. Diz que a saída não é eleitoral, que é revolucionária, e propõe destruir este Estado capitalista.
Além disso, enfrenta o imperialismo: Trump fora da América Latina, contra o acordo Mercosul-União Europeia, contra a exploração da Margem Equatorial, contra a negociata das terras raras, Palestina livre do rio ao mar. Enfrenta o bolsonarismo sem cair no antifascismo de frente popular: Bolsonaro preso, nenhuma anistia aos golpistas — e, ao mesmo tempo, nenhuma confiança nesta democracia dos ricos.
E há um ponto que merece destaque especial, porque é nele que a fronteira fica mais visível: o manifesto defende a vitória da resistência ucraniana contra a invasão russa, ao mesmo tempo em que combate a OTAN e o imperialismo norte-americano. Esta não é a posição do restante da chamada “esquerda radical”. As candidaturas do PCB e, sobretudo, da UP não defendem a vitória da resistência ucraniana: ou reduzem a guerra a um choque entre blocos capitalistas, no qual não há lado a apoiar, ou dirigem seu combate exclusivamente contra a OTAN e terminam deixando o povo invadido sem defesa diante das tropas de Putin. A nota do PCB é explícita nisso: chama à “paz” e à luta contra a OTAN, conclama os proletariados russo e ucraniano a ajustarem contas com suas próprias burguesias, e não diz uma palavra sobre o direito de um povo invadido a expulsar quem o invade.
Para nós este é um divisor de águas, e é o mesmo princípio que sustenta a solidariedade com a Palestina: quem não defende o direito de um povo oprimido a derrotar militarmente quem ocupa seu território não é consequente em nenhum outro lugar do mapa. Neste ponto acordamos plenamente com o manifesto, e o dizemos em voz alta porque boa parte da esquerda que se diz revolucionária no Brasil falhou nesta prova.
Isso é uma posição revolucionária, classista e anti-imperialista.
Apoiamos porque, num quadro em que quase toda a esquerda cruzou a fronteira de classe, uma candidatura que não a cruzou merece o voto dos trabalhadores. Cada voto em Hertz é um voto contra a conciliação, contra o mal menor e contra a ideia de que só se pode escolher entre o carrasco de terno e o carrasco de farda.
A classe trabalhadora se dividiu ao meio em 2018 e em 2022, votando num ou noutro lado na esperança de que o salário aumentasse, de que o preço dos alimentos parasse de subir e de que a vida melhorasse. Não aconteceu nem com a extrema direita nem com esta dita “esquerda” no poder: em 2026, o custo de vida estimado para os brasileiros é de R$ 3.520, enquanto 70% da população sobrevive com uma renda aproximada de apenas R$ 2.500. A polarização entre Lula e o bolsonarismo é a maior fake news contra a classe trabalhadora desde o fim da ditadura, porque apresenta como campos opostos dois projetos que têm em comum o essencial: a defesa dos interesses dos grandes empresários e do imperialismo — e, portanto, contra os trabalhadores.
Por isso, nosso chamado ao voto não alimenta nenhuma ilusão nas urnas. No dia seguinte à eleição, o poder seguirá controlado pelos juízes e políticos da burguesia, e a única polarização que serve a quem trabalha é a da classe trabalhadora organizada contra a burguesia. A participação dos trabalhadores na política deve ser permanente, e as eleições são apenas um de seus momentos: usamos as campanhas de Hertz e de Frodo como tribuna para defender a construção de um campo próprio da classe trabalhadora contra todas as alternativas dos patrões e para levantar a necessidade de um Governo Operário e Socialista — pois nem a extrema direita nem o PT são alternativas reais para a classe trabalhadora.
Nosso projeto e nossas diferenças com o PSTU
É importante lembrar que a maioria dos militantes que hoje integram a Voz Operária Socialista foi, até setembro do ano passado, fomos militante do PSTU e da LIT; rompemos por diferenças sobre problemas de regime. Nesta nota está a nossa explicação: https://vosbrasil.org/manifesto-constitutivo-da-corrente-operaria-revolucionaria-internacional-quarta-internacional. Não é nosso objetivo reabrir este debate, mas é importante deixá-lo registrado.
Estamos convencidos de que é necessário que no Brasil surja uma organização revolucionária que tenha a obsessão de que a classe operária se converta num ator político no Brasil e na América Latina, e que consiga ser o centro de uma aliança com os setores oprimidos. Hoje não vemos que isso seja prioritário para nenhuma das organizações revolucionárias no Brasil, as quais têm fortes desvios sindicalistas e movimentistas.
A Voz Operária Socialista chama todos os que estiverem interessados em fundar uma organização que tenha como centro construir uma corrente operária socialista no Brasil a virem conhecer nossas propostas.
Apoiamos e debatemos
Como já dissemos, cada voto em Frodo e nas candidaturas do PSTU é um voto classista e anti-imperialista; por isso nos somamos à campanha.
Mas, como parte da esquerda revolucionária, também debateremos com todas as letras onde acreditamos que o programa se equivoca, e vamos dizê-lo publicamente, diante da classe trabalhadora, porque é assim que se constrói consciência de classe.
Não faremos trabalho fracional, não faremos ataques morais e não confundimos polêmica política com deslealdade. Divergimos em público e defendemos em público.
A classe operária diluída
O manifesto Por uma alternativa para romper as engrenagens do sistema capitalista diz que os trabalhadores “constroem toda a riqueza que existe”. A frase é correta. O problema é a lógica que ele desenvolve a partir dela: é uma lógica moral, porque parte da injustiça, mas não parte do poder que a classe trabalhadora tem de parar a produção e de ser o centro de uma nova sociedade capaz de acabar com as chagas do capitalismo.
Para o manifesto, a classe trabalhadora é sobretudo uma vítima: sua riqueza é sempre apropriada, enviada para fora, drenada, sugada. Aparece sempre de forma passiva. Mas a classe trabalhadora não é apenas a vítima da engrenagem: é quem a faz girar e quem pode liderar uma revolução socialista.
Não é por acaso que em todo o manifesto a expressão CLASSE OPERÁRIA aparece uma única vez, e é ao final, na trajetória de Hertz (com a qual concordamos). Para os companheiros do PSTU, a classe operária é mais um setor no interior da aliança que propõem entre a classe trabalhadora e os setores oprimidos.
Para nós é o contrário: a classe operária é a vanguarda da classe trabalhadora, e é a única que tem a capacidade de alcançar uma centralidade que imponha interesses opostos aos da burguesia e do imperialismo. Porque ela requer a propriedade coletiva de suas ferramentas para poder seguir produzindo, e suas necessidades de saúde e educação também são coletivas. Nesses dois elementos — sua capacidade de parar a produção e suas necessidades coletivas — estão seus interesses opostos aos da burguesia.
Reconhecemos hoje o PSTU como um partido classista e anti-imperialista, parte da tradição morenista da qual também viemos, que se mantém do lado operário da fronteira de classe e que conserva uma inserção real na classe operária: São José dos Campos e o Vale do Paraíba, os petroleiros da FNP, a construção civil em Belém e Fortaleza, entre outros. Não é um partido reformista nem um agente da conciliação: é uma corrente da nossa classe, com a qual polemizamos como se polemiza dentro do movimento operário.
Mas estamos convencidos de que hoje usam essa inserção mais para fazer sindicalismo, pressionados pela tarefa de dirigir muitos aparatos sindicais, e colocam em terceiro plano a construção de uma corrente operária que transcenda o sindicalismo. Um exemplo é que, apesar de Hertz ser um revolucionário sem nenhuma dúvida, ele não provém dos setores operários do PSTU.
Para nós, o principal problema hoje do campo revolucionário é desenvolver a construção na classe operária e formar dentro dela uma ala socialista disposta a liderar a aliança com os demais setores oprimidos. Essa é a falha que arrastamos desde o primeiro governo Lula e que se agravou depois de uma enorme ruptura da classe operária com o PT, que passou a apoiar o bolsonarismo.
Enquanto não surgir uma corrente socialista de milhares na classe operária brasileira, seguiremos presos à conciliação de classes. Esta é a lógica que atravessa grande parte de nossas diferenças políticas com os companheiros do PSTU. Tentaremos demonstrar, por meio da campanha de Frodo e de nossa ação política, como se pode construir de acordo com esta prioridade.
As 250 empresas: um dado forte usado ao contrário
O manifesto abre com o dado mais forte que tem e o desperdiça na primeira página.
Diz: cerca de 250 grandes empresas controlam a maior parte da economia brasileira, a maioria multinacionais ou conglomerados associados ao imperialismo — é uma estimativa do ILAESE, coerente com o censo de capitais estrangeiros do Banco Central. E daí extrai uma única conclusão: dependência.
Antes de seguir, uma precisão necessária, que o manifesto não faz e que nós tampouco podemos deixar passar: essas 250 empresas não são todas industriais. O que elas concentram é a maior parte do PIB, e o PIB soma bancos, comércio, seguros, telecomunicações, energia e serviços. Concentração do PIB não é o mesmo que concentração da produção de mercadorias e de valor. Quem confunde as duas coisas termina atribuindo ao Itaú o mesmo lugar estratégico que à Petrobras, e isso é falso.
Feita a precisão, o dado segue sendo muito mais forte do que o uso que o manifesto lhe dá. Da concentração do capital decorre algo que o manifesto não diz: se um punhado de empresas concentra a economia brasileira, então os trabalhadores dessas empresas concentram o poder de pará-la. A concentração capitalista é a premissa material da centralidade operária. Não é dedução nossa: é a tese do Manifesto Comunista — a burguesia, ao concentrar os trabalhadores para explorá-los melhor, produz seus próprios coveiros; ao centralizar a produção, entrega a alguém a chave da porta.
Mas esse poder não está distribuído por igual entre as 250. Está concentrado nos nós por onde passa a produção e a circulação do valor: refinarias e a distribuição de combustíveis, portos, ferrovias e o transporte rodoviário de cargas, energia elétrica, telecomunicações, siderurgia e mineração, frigoríficos, montadoras e sua cadeia de autopeças. Uma greve de bancários é uma greve importante da nossa classe; uma greve nas refinarias ou nos portos para o país. A diferença não é de combatividade nem de mérito moral: é de posição na produção. É exatamente essa diferença que um programa revolucionário precisa saber ler, e que o manifesto não lê.
É a diferença entre denunciar e organizar. A denúncia mostra quanto foi arrancado. A organização mostra de quem depende que se siga arrancando.
O manifesto cita: quase 60% no desemprego, no subemprego ou no trabalho precário; mais de 60% dos formais acima das 40 horas; 68% ganhando até R$ 2.424; perda salarial real em todas as categorias entre 2012 e 2024, com os operários industriais perdendo 2,6% ao ano entre 2020 e 2024. É um retrato demolidor. E é, do princípio ao fim, o retrato do que fizeram com a classe — nunca do que a classe pode fazer.
Reivindicações corretas, método incompleto
Reúnam-se as medidas concretas do manifesto: fim da escala 6×1; aumento geral rumo ao salário mínimo do DIEESE; revogação das reformas trabalhista e da Previdência; isenção do Imposto de Renda; direitos para os trabalhadores de aplicativos; não à pejotização no STF; reforma agrária; titulação de terras indígenas e quilombolas; fim dos subsídios ao agronegócio; desmilitarização da Polícia Militar; descriminalização das drogas; revogação do arcabouço fiscal; suspensão do pagamento da dívida; proibição da remessa de lucros; imposto sobre as grandes fortunas; controle de capitais.
Digamos primeiro o mais importante: defendemos essas reivindicações. Todas elas. E não faremos a crítica fácil de que se trata de um programa “apenas legislativo”, porque essa crítica não se sustenta. Uma reivindicação não é reformista ou revolucionária pelo lugar onde é apresentada. A escala móvel de horas de trabalho e de salários, que é uma reivindicação transitória clássica, também pode ser apresentada como projeto de lei no Congresso — e deve ser, quando isso serve para mostrar a milhões que a ordem burguesa não pode concedê-la. Não será aprovada, é evidente; mas é justamente a recusa que ensina. Da mesma forma, várias das medidas do manifesto podem ser impostas diretamente aos patrões pela luta, e algumas delas, nas condições concretas do Brasil e do capitalismo mundial de hoje, cumprem de fato um papel transitório: a reforma agrária, o fim dos subsídios ao agronegócio, a suspensão do pagamento da dívida e a proibição da remessa de lucros não podem ser concedidas por esta burguesia sem que ela deixe de ser o que é.
Nossa diferença, portanto, não é com o conteúdo das reivindicações. É com o método com que o manifesto as apresenta — e o método é a metade que falta.
Uma reivindicação transitória tem dois lados: o que se exige e quem impõe. O manifesto desenvolve o primeiro com clareza e cala sobre o segundo. As dezesseis medidas aparecem formuladas com um único destinatário prático, o Congresso Nacional, no mesmo documento que afirma que “a luta por uma alternativa dos trabalhadores não é, em última instância, eleitoral” e que não será “por dentro da institucionalidade”. Essa é a contradição real, e ela não está no conteúdo do programa: está entre o método que o manifesto declara e o método que pratica. Em nenhum momento se diz que organismo da classe impõe cada medida, nem o que um trabalhador faz com ela na segunda-feira de manhã.
E há um segundo problema, que decorre do primeiro: faltam as reivindicações que só existem como organização. Comissões de fábrica eleitas pela base e revogáveis. Abertura dos livros contábeis. Veto operário às demissões. Controle da produção e dos ritmos. Ocupação sob controle dos trabalhadores da fábrica que fecha. Estas não são versões “mais radicais” das anteriores: são as que constroem o sujeito capaz de arrancar todas as demais, inclusive as que se exigem por lei. Sem elas, o programa mais correto continua sendo uma lista de coisas que se pedem a outros. A única menção ao controle operário no manifesto — “expropriar os monopólios e colocá-los sob controle democrático dos trabalhadores” — está no penúltimo parágrafo de um bloco teórico, sem uma palavra de ordem que a traduza em tarefa concreta.
Um programa se mede por isto: o que a classe operária faz com ele na sua seção, na semana que vem.
Os oprimidos não estão fora da classe
O manifesto constrói seu sujeito por soma. Trabalhadores, negros, mulheres, LGBTI, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, juventude pobre. A fórmula se repete, e a formulação final do governo que propõe é literal: “um governo da classe trabalhadora e dos povos originários, quilombolas, mulheres e juventude pobre e negra, sem capitalistas”.
Leia devagar. A classe trabalhadora é o primeiro item de uma lista, ligada aos demais pela conjunção “e”. E aqui está o problema, que é maior do que uma questão de ênfase: a lista transforma os oprimidos em setores sociais que estão ao lado da classe trabalhadora, quando a imensa maioria deles está dentro dela.
No Brasil isso não é um detalhe. A população negra é a maioria da população do país — 55,5% segundo o Censo 2022 do IBGE — e é maioria ainda mais ampla entre os trabalhadores manuais: na construção civil, nos frigoríficos, na limpeza, no transporte, nos serviços terceirizados, no trabalho informal. A trabalhadora negra da linha de produção não é a soma de três sujeitos, uma trabalhadora mais uma negra mais uma mulher.
Dizer isto tem consequências práticas. É correto que temos que construir alianças com todos setores oprimidos, sob a direção da classe operária. Por outro lado, é preciso dar centralidade ao combate a estas opressões no interior da própria classe.
Se os oprimidos estão fora da classe, o combate ao racismo é uma aliança que a classe faz com terceiros, e pode ser adiado sem que a classe perca nada. Se estão dentro dela — e estão — o combate ao racismo é a condição para que a classe se constitua como classe. Não é apêndice do programa operário: é parte do seu núcleo. Num país formado pela escravidão e por uma transição para o trabalho livre que jogou milhões de trabalhadores negros na obrigação de aceitar o pior salário.
Isso não anula a aliança. Há setores oprimidos que de fato não são parte da classe operária: os camponeses sem terra, os povos indígenas, as comunidades quilombolas e ribeirinhas, a pequena burguesia arruinada das periferias. A aliança com eles é obrigatória. O que dizemos é que ela precisa de um eixo, e que o eixo só pode ser a classe operária. A diferença com o manifesto não é de ênfase; é de estratégia:
- Para nós, os oprimidos que estão fora da classe operária se unem a ela porque ela é a única classe cuja posição na produção lhe dá poder de derrubar a ordem que os oprime; e os oprimidos que estão dentro dela são a própria classe, cuja unidade se conquista combatendo o racismo e o machismo no local de trabalho e no sindicato. A aliança tem um eixo, e o eixo é a fábrica, o porto, a refinaria, o metrô. O partido operário é, na formulação de Lênin, o tribuno do povo, que responde a toda arbitrariedade venha de onde vier, precisamente porque só ele tem a força material para resolvê-la.
- Para o manifesto, oprimidos e operários se somam porque todos sofrem sob o mesmo sistema. O laço é a opressão compartilhada. É um laço real e é uma verdade — mas é laço de sofrimento comum, não de poder comum. Embora seja fato que os setores oprimidos tenha radicalidade e sejam explosivos e vanguarda das lutas é insuficiente se não ocuparem o papel central na produção.
Uma frente de solidariedades justapostas, sem eixo, se dissolve na primeira prova de forças, porque ninguém dentro dela tem como parar a produção.
E isto não é abstração. Foi comprovado empiricamente, no Brasil, e a favor da nossa tese.
Entre 1978 e 1989 este país viveu a maior ascensão operária de sua história. Começou em 12 de maio de 1978, quando os operários da Saab-Scania em São Bernardo cruzaram os braços. Em 1979, a primeira greve geral de uma categoria urbana na história do sindicalismo brasileiro: cerca de 200 mil metalúrgicos parando Volkswagen, Ford, Mercedes e Scania, assembleias de 80 mil na Vila Euclides. Em 1980, 41 dias de greve, mais de 300 mil metalúrgicos, intervenção federal e Lula preso. Dali saíram o PT (1980) e a CUT (1983). E dali saiu a cadeia de greves gerais — 1983, 1986, 1987 — até março de 1989, a maior greve geral da história brasileira, com cerca de 35 milhões de trabalhadores contra o Plano Verão.
Quem acendeu isso? Não foi a soma dos oprimidos. Foi o setor metalúrgico de plantas com dezenas de milhares de trabalhadores concentrados em três cidades do ABC. Naquele momento, o polo mais dinâmico da acumulação brasileira e o setor mais avançado do movimento sindical coincidiam no mesmo lugar. Foi essa coincidência — e não a extensão das alianças — que deu ao proletariado o poder de fazer o país parar e de arrastar atrás de si todos os setores oprimidos, que se somaram porque havia a quem se somar.
E aqui se desfaz de vez o falso dilema. Os metalúrgicos que pararam o ABC não eram “os operários” em oposição a “os oprimidos”. Eram, em boa parte, migrantes nordestinos, pobres, negros, recrutados pelas montadoras nas décadas anteriores — o próprio Lula é um retirante de Garanhuns. Os oprimidos não seguiram os metalúrgicos de fora: em grande medida, eles eram os metalúrgicos. O que mudou tudo não foi que sofressem mais ou menos, e sim onde estavam quando decidiram parar.
Os oprimidos não seguiram os metalúrgicos porque os metalúrgicos sofressem mais. Seguiram-nos porque os metalúrgicos podiam parar o país.
É esse dado histórico que o manifesto não usa, e por isso a aliança que propõe fica sem centro. Não queremos que se entenda mal, como se os setores oprimidos não fossem importantes: eles são decisivos num país semicolonial como o Brasil, que vive uma epidemia de feminicídios e um racismo que massacra a juventude negra das periferias. O que dizemos é que hoje, desde a esquerda revolucionária, nosso programa é marginal porque não consegue se desenvolver no setor estratégico — onde, aliás, estão também esses mesmos oprimidos.
Fraternidade entre revolucionários
Estas críticas, junto aos temas de regime, hoje nos convencem a ter nosso próprio projeto. Mas isso não impede que possamos militar e debater juntos no marco da disputa política que se trava hoje com as eleições burguesas.
Por isso chamamos a votar em Hertz Dias e nas candidaturas majoritárias do PSTU.
Chamamos a votar em Frodo para deputado federal e a que se somem ao nosso projeto.
NEM BOLSONARO, NEM LULA: POR UM GOVERNO SOCIALISTA OPERARIO E POPULAR

