A riqueza está debaixo dos nossos pés e sai do país a 107 dólares a tonelada
Mario Cruz
1. Qual é a riqueza mineral do Brasil e por quanto ela sai daqui
O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo. O Serviço Geológico dos Estados Unidos aponta cerca de 21 milhões de toneladas, aproximadamente 23% de tudo o que existe no planeta. Só a China tem mais.[1] A ANM, a Agência Nacional de Mineração, que é o órgão do governo brasileiro que fiscaliza o setor, revisou esse número para 11,4 milhões de toneladas usando um cálculo mais rigoroso. Mesmo assim o país continua em segundo lugar.[2] Citamos os dois números porque não vamos inflar dado nenhum.
Terras raras são 17 elementos químicos.[3] Quatro deles, o neodímio, o praseodímio, o disprósio e o térbio, são os chamados elementos magnéticos. Sem eles não existe motor de carro elétrico, turbina de energia eólica, disco rígido de computador, drone, míssil guiado, caça de guerra. São a matéria-prima estratégica da indústria e da guerra no século XXI.
E não é só isso. Segundo o Serviço Geológico do Brasil:[4]
- Nióbio: cerca de 94% das reservas do mundo, 16 milhões de toneladas. É quase um monopólio mundial.
- Grafita: segunda reserva do mundo, 74 milhões de toneladas, 26% do total. É o que faz o ânodo de toda bateria de íon-lítio.
- Níquel: terceira reserva do mundo, 16 milhões de toneladas, 12% do total.
- Lítio: o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, saiu do zero e virou o quinto maior exportador do mundo em menos de dois anos.[5]
Some a isso o pré-sal, o minério de ferro de Carajás, a bauxita, o manganês, o cobre, o ouro e o urânio.
O que esse setor movimenta
Os números de 2025 são do IBRAM, o Instituto Brasileiro de Mineração, que é a entidade das próprias mineradoras:[6]
- Faturamento do setor mineral: R$ 298,8 bilhões, 10,3% a mais que em 2024. Só o minério de ferro deu R$ 157,2 bilhões, mais da metade do total.
- Exportações: cerca de 431 milhões de toneladas, que renderam aproximadamente US$ 46 bilhões.
- Saldo da balança comercial mineral: US$ 37,6 bilhões. Isso é 55% de todo o superávit comercial do Brasil, que foi de US$ 68,3 bilhões.
- Para onde vai: 69,2% das exportações minerais brasileiras foram para a China.
- O setor pretende investir US$ 76,9 bilhões entre 2026 e 2030.
Guarda o terceiro número, companheiro. Mais da metade do que o Brasil ganha vendendo para fora é pedra. Não é indústria, não é tecnologia. É buraco no chão.
A conta que resume tudo
431 milhões de toneladas vendidas por US$ 46 bilhões dá, na média, cerca de US$ 107 por tonelada.
Cento e sete dólares. Uma tonelada inteira. É esse o preço da riqueza brasileira na hora em que ela passa pelo porto.
Uma tonelada de ímãs de neodímio, feita com esse mesmo material depois de algumas etapas de fábrica, vale muitas vezes mais que isso. Um motor elétrico vale mais ainda. Um carro elétrico completo, mais ainda. Nada disso é fabricado aqui.
E no caso das terras raras a situação chega ao absurdo:
Em 2024 o Brasil produziu cerca de 20 toneladas de óxidos de terras raras. A China produziu 270 mil.[7]
Menos de 1% da produção mundial, sentados em cima da segunda maior reserva do planeta. Não existe no país uma única fábrica capaz de separar um elemento de terra rara do outro. Não existe cadeia de ímãs. O que sai daqui é concentrado bruto, de baixo valor, que vai ser tratado em outro lugar. Principalmente na China, que controla cerca de 69% da extração e entre 87% e 90% do refino no mundo inteiro.[8]
Nós exportamos a pedra e importamos de volta o motor.
É esse o critério de riqueza deste texto. Não a riqueza em geral, mas a riqueza mineral que este país arranca da terra, embarca no porto e vê voltar transformada em produto caro. É a partir dela que vamos medir tudo o que vem daqui para a frente: o lucro que sai, o imposto que não é cobrado, a indústria que não existe, o hospital que falta.
Essa distância entre a reserva gigante e a produção ridícula não é acidente da geologia nem falta de competência. É resultado de decisões tomadas por gente com nome, endereço e conta bancária.
2. Por que a burguesia brasileira escolhe ser sócia menor, e por que o PT administrou essa escolha
Aqui é preciso cuidado, porque a explicação fácil está errada e cai por terra no primeiro debate.
A explicação fácil diz assim: os empresários brasileiros são traidores, são covardes, são entreguistas. Isso é xingamento, não é análise. E tem um problema político sério. Se o problema fosse a covardia de alguns, bastaria achar empresários corajosos. É exatamente o que a classe média de esquerda propõe há cem anos, sempre com o mesmo resultado.
A explicação verdadeira é outra. Para a burguesia brasileira, ser sócia menor do capital estrangeiro dá mais lucro e menos risco do que disputar espaço com ele. Não é falta de coragem. É conta feita, e a conta fecha para o lado deles.
Pensa no que seria industrializar as terras raras de verdade. Seria preciso construir uma fábrica de separação química, o que leva anos entre projeto, licença e obra. Depois uma fábrica de metalização. Depois uma fábrica de ímãs. E aí ainda brigar no mercado contra chineses que fazem isso há trinta anos com dinheiro do Estado deles. Dez anos de investimento, retorno incerto, risco alto de perder.
Ou então: abre a cava, enche o navio, recebe em dólar em noventa dias.
Vender concentrado a US$ 107 a tonelada é péssimo para o Brasil e ótimo para quem vende. Não tem contradição nenhuma nisso. E é por isso que nenhuma parte da burguesia brasileira escolheu o caminho longo. O caminho curto sempre pagou mais para eles, e paga hoje.
Os números dessa escolha vêm do Banco Central:[9]
- Em 2024 saíram do Brasil US$ 45,571 bilhões só em remessa de lucros e dividendos para o exterior. É mais do que o saldo mineral inteiro daquele ano. No mesmo ano entraram US$ 74,091 bilhões de investimento estrangeiro. Quase dois terços do que entrou saiu de volta como lucro do capital.
- O estoque de capital estrangeiro no país chegou a US$ 1,141 trilhão, ou 46,6% do PIB, o maior da história. Desse total, 28% é capital dos Estados Unidos.
- E só seis empresas brasileiras aparecem na lista das 2.500 que mais investem em pesquisa no mundo.[10]
O Estado brasileiro, sob todos os governos, ajuda essa máquina a funcionar:
A Lei Kandir, de 1996, isenta de ICMS a exportação de produto bruto e semiacabado.[11] As perdas dos estados chegaram a R$ 268,9 bilhões entre 1997 e 2016, segundo estudo apresentado à Câmara dos Deputados. Minas Gerais perdeu R$ 64,6 bilhões e o Pará perdeu R$ 35,7 bilhões. A compensação combinada foi de uns R$ 58 bilhões até 2037, uma fração do que se perdeu.[12] Traduzindo em bom português: o Estado brasileiro paga para que a pedra saia crua. Se saísse industrializada, pagaria imposto.
A CFEM, que é a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, ou seja, o valor que a mineradora paga ao país por tirar do chão uma riqueza que a Constituição diz que é da União, fica entre 1% e 3,5%.[13] Arrecadou R$ 7,9 bilhões em 2025, em cima de um faturamento de R$ 298,8 bilhões. Dá cerca de 2,6%.[14] E nem isso é pago direito. O TCU, o Tribunal de Contas da União, auditou o período de 2014 a 2021 e calculou que entre 30,5% e 40,2% do devido não foi recolhido, algo entre R$ 9,4 e R$ 12,4 bilhões. Cerca de 70% das empresas com título minerário não pagam CFEM por conta própria.[15]
Sobre o papel do PT é preciso separar o que ele herdou do que ele escolheu, senão o argumento não para em pé.
A Vale foi privatizada em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso. Não foi o PT que vendeu.[16] Mas em mais de treze anos de governo o PT nunca desfez essa privatização. Nem a da Eletrobras depois de 2022. Não mexeu na Lei Kandir. Não subiu a CFEM.
O que o PT fez por conta própria foi a política dos “campeões nacionais”. O BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, colocou cerca de R$ 18 bilhões entre 2007 e 2013 em JBS, Marfrig, Lácteos Brasil, Oi e Fibria.[17] O resultado está aí: a Lácteos Brasil quebrou, a Oi entrou em recuperação judicial, a Fibria foi comprada por outra, e a JBS, que foi a que mais deu certo, mudou suas ações para a bolsa de Nova York. Dinheiro público entregue à burguesia nacional para competir no mundo deu em falência ou em fuga do país.
E agora, em 2026, o governo Lula aprovou na Câmara, com apoio declarado do Planalto, o PL 2780/2024, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. São R$ 2 bilhões de fundo garantidor da União e até R$ 5 bilhões em créditos fiscais para atrair capital privado, inclusive estrangeiro.[18] O autor é o deputado Zé Silva, do União Brasil de Minas. O relator é Arnaldo Jardim, do Cidadania de São Paulo, e o texto tem digital reconhecida do lobby das mineradoras.[19] O PT e a base do governo votaram a favor. A federação PSOL-Rede e o PCdoB orientaram voto contrário, em votação simbólica.[20] Registramos isso com todas as letras, porque nós não mentimos nem sobre quem criticamos.
Dinheiro público para exploração privada. É a mesma fórmula de cem anos atrás, com nome novo.
3. Sem indústria, riqueza mineral é só buraco no chão
Este capítulo é o eixo de tudo o que vem depois. Pedimos que seja lido com calma mesmo por quem já conhece o assunto.
Riqueza mineral não é riqueza. É matéria-prima de riqueza. O que transforma uma tonelada de pedra de US$ 107 em produto caro é trabalho industrial: química, metalurgia, engenharia, laboratório, fábrica. Sem isso o país fica com o buraco, com a barragem de rejeito, com o rio assoreado e com o pulmão do mineiro. E o valor fica com quem industrializa.
O que aconteceu com a indústria brasileira
Os números precisam ser lidos com cuidado, porque existem séries diferentes e mudanças de método do IBGE que confundem o debate. Vamos mostrar as três com essa ressalva na frente:[21]
- Pela série do IBGE a preços correntes, a indústria de transformação era cerca de 36% do PIB em 1985 e caiu para cerca de 11% em 2021, a menor da história.
- Pelos cálculos do IEDI, um instituto ligado a empresários industriais, a participação foi de 13,6% em 2013 para 10,7% em 2023 e 10,8% em 2024.[22]
- Pelos dados da CNI, a Confederação Nacional da Indústria, a indústria como um todo, incluindo construção e mineração, caiu de cerca de 48% do PIB em 1985 para 24,7% em 2024. A indústria de transformação sozinha ficou em 14,4%.[23]
Os números divergem, mas todos apontam na mesma direção: o Brasil perdeu muito peso industrial.
No mundo o retrato é pior. A indústria brasileira era cerca de 2,7% da produção industrial mundial em meados dos anos 1990 e hoje é em torno de 1,2%.[24] Perdemos mais da metade do nosso peso industrial no mundo em uma geração.
Por que isso decide o tema deste texto
Porque é na indústria que se produz tecnologia. Segundo a CNI, a indústria de transformação responde por 62,4% de todo o investimento das empresas em pesquisa e desenvolvimento no Brasil e emprega cerca de 7,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada.[25]
Destruir a indústria não é só perder emprego bom. É perder a capacidade de fazer: os químicos, os engenheiros, os laboratórios, os técnicos, as escolas que formam essa gente e as empresas que contratam.
E é exatamente por isso que o Brasil não separa terras raras.
Separar neodímio de praseodímio e de disprósio é problema conhecido de química industrial. Não é ficção científica nem segredo militar. O Brasil já teve essa capacidade. A Nuclemon produzia óxidos de terras raras de alta pureza, e esse trabalho foi interrompido nos anos 1990, no meio das privatizações e da abertura da economia. Até hoje o Serviço Geológico do Brasil, o CETEM, que é o Centro de Tecnologia Mineral, a INB, que são as Indústrias Nucleares do Brasil, as universidades federais e projetos como o MagBras mantêm gente que sabe fazer, mas sem escala de fábrica e com orçamento apertado.[26]
Não é que a gente não saibamos. É que desmontaram.
E por que o sócio menor nunca vai reindustrializar
Aqui está o nó, e ele vale para todos os capítulos seguintes.
Para uma burguesia que ganha vendendo concentrado, industrializar não é oportunidade. É custo. Exige prender capital por dez anos, formar trabalhador qualificado que depois se organiza em sindicato, enfrentar concorrente chinês estabelecido e, pior de tudo, brigar com os sócios estrangeiros de quem ela depende para todo o resto.
Por isso, quando a burguesia brasileira e seus governos falam em “agregar valor”, o que sai na prática é sempre a mesma coisa: incentivo fiscal e dinheiro público para que outro industrialize. O PL 2780 é o retrato disso. São R$ 2 bilhões de fundo e R$ 5 bilhões em créditos fiscais para “estimular o beneficiamento no país”, sem obrigação nenhuma de que a cadeia seja construída aqui, sem controle sobre quem é o dono, sem contrapartida de emprego nem de tecnologia.
É o mesmo enredo que o metalúrgico da região de Campinas e Indaiatuba conhece de cor. A montadora chega, recebe incentivo, opera enquanto dá lucro e vai embora quando a conta muda de lugar. Fica o galpão vazio para o município e a rescisão para o operário. Não falta política industrial. O que existe é uma política industrial de sócio menor: pagar para que quem manda lá fora fique aqui mais um tempo.
Guarda esta frase, porque ela volta em todos os capítulos:
Sem indústria não tem valor. Sem valor não tem orçamento. Sem orçamento não tem saúde, escola nem aposentadoria. E quem escolheu ser sócio menor nunca vai construir a indústria, porque a indústria é justamente o que romperia a sociedade com o patrão de fora.
4. Petrobras e Vale: as duas provas que ninguém consegue contestar
Sempre que se fala em estatizar aparece a resposta pronta: “o Brasil já tem a Petrobras”. Muito bem. Vamos olhar a Petrobras.
A Petrobras distribuiu R$ 427,1 bilhões em dividendos em cinco anos, sendo R$ 194,6 bilhões só em 2022.[27] Para onde vai esse dinheiro? A União, somando BNDES e BNDESPar, detém cerca de 36,6% do capital total. O capital estrangeiro, somando as ADRs de Nova York e os investidores estrangeiros na B3, já passa de 40% do capital.[28] O capital estrangeiro já é maior do que a fatia da União.
Ou seja: uma empresa estatal, criada com a bandeira “o petróleo é nosso”, hoje entrega a acionistas, quase metade deles de fora, mais dinheiro do que o orçamento de vários ministérios somados.
E o monopólio? A Lei 13.365, de 2016, acabou com a obrigação de a Petrobras ser a única operadora do pré-sal.[29] Nos contratos de partilha atuam hoje quinze petroleiras, quatorze delas multinacionais. A Shell foi a maior produtora estrangeira do pré-sal no primeiro semestre de 2025, com cerca de 516 mil barris por dia.[30]
Repara no padrão do capítulo anterior se repetindo. A Petrobras desenvolveu tecnologia de perfuração em águas profundas de nível mundial. Isso prova que a capacidade técnica existe quando há empresa, escala e encomenda. E essa capacidade, construída com trabalho brasileiro e dinheiro público, hoje valoriza capital em Nova York, enquanto o país exporta petróleo cru e importa gasolina e diesel. O problema nunca foi incompetência técnica. É quem manda e para onde vai o dinheiro.
Agora a Vale. Foi privatizada em 1997 por um valor de banana e virou a maior mineradora do país. O minério de ferro que ela exporta sozinho responde por mais da metade do faturamento mineral brasileiro, e sai como minério, não como aço. O preço dessa transformação não foi pago em dividendo. Foi pago em vida de trabalhador, e o capítulo 6 trata disso.
A Petrobras prova que estatal sem controle dos trabalhadores sangra valor do mesmo jeito. A Vale prova que privatizada, sangra valor e mata. Juntas provam a mesma coisa: o problema é a propriedade e o comando, não a sigla na fachada.
5. Terras raras e Serra Verde: como se entrega um país sem assinar nada
Este caso resume tudo. E precisa ser contado direito, porque a versão simplificada que circula na esquerda está errada.
A Serra Verde, na mina Pela Ema, em Minaçu, no norte de Goiás, é a única mina de terras raras em operação comercial no Brasil. É também a única fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro elementos magnéticos. Emprega cerca de 350 trabalhadores diretos.[31]
Primeiro fato, e é o mais importante: a Serra Verde nunca foi brasileira. Foi criada em 2010 pela Denham Capital, de Boston, com capital 100% estrangeiro; em 2023 entraram também a Energy & Minerals Group, de Houston, e a Vision Blue Resources, do Reino Unido.[32] Chamar a Serra Verde de “empresa brasileira vendida” é errado e enfraquece a denúncia.
Segundo fato: até pouco tempo atrás quase toda a produção dela era comprada pela Shenghe Resources, empresa que tem participação do Estado chinês. Em 2025 a Serra Verde exportou cerca de 678 toneladas para a China e 51 quilos para os Estados Unidos.[33] Concentrado bruto, para ser separado lá fora.
Terceiro fato: em fevereiro de 2026 a Serra Verde fechou um financiamento de US$ 565 milhões com a DFC, que é a agência de financiamento do governo dos Estados Unidos, com opção para o governo norte-americano comprar uma fatia acionária.[34] Em dezembro de 2025 já havia renegociado os contratos com os compradores chineses, que agora terminam no fim de 2026 — vários anos antes do prazo original.
Quarto fato: em 20 de abril de 2026 a USA Rare Earth anunciou a compra de 100% do grupo Serra Verde por cerca de US$ 2,83 bilhões, sendo US$ 300 milhões em dinheiro e o resto em ações. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026. Um contrato de fornecimento de quinze anos entrega 100% da produção da primeira fase a investidores e a agências do governo dos Estados Unidos, com preço mínimo garantido para os quatro elementos magnéticos — no caso do disprósio e do térbio, algo inédito na indústria.[35]
Quinto fato: em 18 de março de 2026 o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assinou dentro do consulado norte-americano em São Paulo um memorando de entendimento com os Estados Unidos sobre minerais críticos, prevendo cooperação em pesquisa, capacitação e apoio ao desenvolvimento de processamento e manufatura de maior valor agregado em Goiás.[36] Exatamente as etapas industriais que não existem aqui.
Agora presta atenção, porque este é o ponto que quase toda a esquerda erra:
Não existe acordo federal assinado entre Brasil e Estados Unidos sobre minerais críticos. O governo Lula recusou a proposta, e em julho de 2026 o MDIC, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, declarou publicamente que terras raras e minerais críticos pertencem ao povo brasileiro, rejeitando a exigência norte-americana de limitar investimento chinês.[37]
E o ativo foi tomado assim mesmo.
O imperialismo não precisou do acordo. Comprou a empresa com dinheiro público norte-americano, garantiu contrato de quinze anos e ainda ficou com opção de participação do próprio Estado dele. Tudo isso enquanto o governo federal dizia não e um governador da direita assinava memorando por fora.
Por isso a palavra de ordem “suspender a negociação de entrega das terras raras”, que setores da esquerda repetem, não pega. Ela denuncia um acordo que não aconteceu, enquanto a tomada de verdade veio por outro caminho e já está feita. Quem só exige que Lula não assine está mandando trancar uma porta por onde ninguém entrou.
E repara no que essa operação mostra sobre o capítulo 3. O valor da Serra Verde não está na cava. Está no contrato de quinze anos e na cadeia industrial que os Estados Unidos vão montar do outro lado, com dinheiro público deles. Compraram jazida barata para industrializar caro em casa. Foi exatamente o que a burguesia brasileira nunca quis fazer.
O mesmo se repete no lítio. A Sigma Lithium, empresa canadense, recebeu R$ 486,7 milhões do Novo Fundo Clima, pelo BNDES, para minerar no Vale do Jequitinhonha e exportar concentrado.[38]
6. Quem arranca essa riqueza da terra: os trabalhadores
Falamos de reserva, de bilhão, de geopolítica. Agora vamos falar de quem enfia a mão na pedra.
A mineração brasileira tinha 229.312 empregos diretos em novembro de 2025.[39] Guarda essa proporção: um setor que fatura R$ 298,8 bilhões e sustenta 55% do superávit comercial do país emprega menos de 230 mil pessoas. Porque exportar pedra bruta emprega pouco. A indústria de transformação, com peso menor no PIB, emprega 7,8 milhões. Esse contraste é o argumento do capítulo 3 traduzido em carteira de trabalho.
Não existe número público separado só para minerais críticos, o que por si só já diz alguma coisa sobre a transparência do setor. O que existe, e é muito, é o registro do que acontece com essa gente.
Terceirização não é tipo de contrato. É jeito de morrer.
Em Mariana, em 2015, dos quatorze trabalhadores mortos, treze eram contratados por empresa terceirizada.[40]
Em Brumadinho, em 2019, o maior acidente de trabalho da história do Brasil, dos 270 mortos, 119 eram terceirizados.[41]
Isso não é coincidência. É o desenho do negócio. A terceirização existe para jogar o risco de morrer em cima de quem tem menos direito, menos estabilidade, menos sindicato e menos condição de dizer “hoje eu não entro aí”. O trabalhador direto tem sindicato, tem CIPA, tem história na empresa. O terceirizado tem contrato que acaba em três meses e um encarregado que decide se ele volta. Quando esse trabalhador vê uma barragem dando sinal, a conta que ele faz não é técnica. É o aluguel do mês que vem.
E não parou depois de Brumadinho. Só nas áreas da Vale em Itabira, entre janeiro e setembro de 2023, foram registrados mais de 20 mil ocorrências e acidentes de trabalho, um deles fatal.[42] O sindicato Metabase denuncia sempre as mesmas causas em Carajás: jornada de 12 horas e terceirização.[43] A CNQ-CUT liga essa precarização direto à reforma trabalhista de 2017, que liberou terceirizar a atividade principal da empresa.[44]
Ritmo de trabalho na mineração não é conversa abstrata. É turno de doze horas no calor, na poeira e no barulho. É escala que come o fim de semana. É alojamento longe de casa. É meta de produção que sobe quando o preço da commodity sobe e não desce quando ele cai. É corpo de gente rodando dentro de um ciclo que foi feito para máquina.
Minaçu: a mesma cidade, a mesma poeira, o mesmo silêncio
Aqui está o fato que ninguém no debate sobre terras raras quer lembrar.
Minaçu, a cidade da Serra Verde, não é uma cidade qualquer. Durante mais de cinquenta anos a SAMA, do grupo Eternit, explorou ali o complexo Cana Brava, a maior mina de amianto crisotila do Brasil.[45] E a Serra Verde opera hoje a partir do complexo que leva esse mesmo nome.[46]
O que o amianto deixou em Minaçu está documentado em pesquisa de universidade, em fiscalização do Ministério do Trabalho e no Mapa de Conflitos da Fiocruz.
Trabalhador que passou anos ensacando fibra de amianto “numa nuvem de poeira, com pedaços de algodão no nariz como única proteção”.[47] Homem que viu morrer sete parentes em dez anos, todos ex-funcionários da mina. Asbestose, placa na pleura, câncer de pulmão, mesotelioma. Um ex-operador de máquina descobriu a doença por acaso, em 2014, quando foi ao médico tratar um problema na mão: “Sinto como se tivesse uma areia no peito”.[48]
E vem o que é mais revelador de tudo. A junta médica que decidia se aquele trabalhador estava ou não doente por causa do amianto era contratada pela própria SAMA/Eternit, através de uma empresa privada que era dos mesmos três médicos que faziam a avaliação. Os exames eram feitos em clínicas escolhidas pela empresa.[49] A empresa reconhece cerca de 100 doentes. A ABREA, que é a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, diz que esse número é muito menor do que o real.[50] Fiscais do Ministério do Trabalho e entidades locais registram cerca de 50 famílias de trabalhadores e ex-trabalhadores atingidas por doença e morte.[51] E, segundo médicos que acompanham os casos, quem adoecia era mandado embora com a justificativa de corte de custo.[52]
A doença do amianto pode levar até cinquenta anos para aparecer.[53] Quer dizer: em Minaçu tem homem morrendo hoje por causa de um trabalho que ele fez nos anos 1970 e 1980, enquanto a cidade recebe uma nova mineradora, agora de terras raras, comprada por uma empresa dos Estados Unidos por US$ 2,83 bilhões.
É a mesma cidade, a mesma poeira e, se nada mudar, o mesmo fim. A pergunta que precisa ser feita em Minaçu, e que só o próprio trabalhador pode responder, é esta: quem faz hoje o exame da Serra Verde? Quem paga o médico que assina o laudo? Dos 350 empregos, quantos são diretos e quantos são terceirizados? Qual é a escala?
Nenhum documento oficial vai responder isso. Só quem está lá dentro.
7. Onde ela é arrancada: o que vivem as comunidades
Se para o trabalhador o preço é o pulmão, para quem mora em volta o preço é a água, a terra e a possibilidade de continuar vivendo naquele lugar.
Vale do Jequitinhonha, o “Vale do Lítio”
Em Itinga e Araçuaí, no norte de Minas Gerais, as comunidades denunciam a poeira o tempo todo, o que eles chamam de pó de malacacheta, doença respiratória, rachadura nas casas por causa das detonações e rio assoreado.[54]
E denunciam a água. A Sigma Lithium fechou acordo com o fornecedor local e isso deixou a aldeia indígena Cinta Vermelha de Jundiba sem abastecimento.[55] Uma empresa canadense, bancada com R$ 486,7 milhões de dinheiro público brasileiro, tirando a água de uma aldeia indígena.
O quilombo Córrego Narciso do Meio respondeu do único jeito que dava: lançou em julho de 2025 o seu próprio Protocolo de Consulta e Consentimento Livre, para obrigar alguém a perguntar antes de escavar.[56] Porque não perguntaram. A Convenção 169 da OIT, que é da Organização Internacional do Trabalho e que o Brasil assinou, obriga a consulta prévia, livre e informada aos povos indígenas e às comunidades tradicionais.[57] Ela não foi feita. Em julho de 2025 foi protocolada ação no STF sobre essa falta de consulta aos quilombolas, e em setembro de 2025 o Ministério Público Federal recomendou suspender a mineração.[58]
Junto com a mina vêm os efeitos que ninguém soma: aluguel que dispara e expulsa quem sempre morou ali, jovem indígena e quilombola largando a escola, economia local quebrada. E vem também a instabilidade do emprego que a mineração prometeu. A empresa Fagundes Construção e Mineração encerrou as atividades no Vale do Jequitinhonha e atingiu cerca de 500 postos de trabalho na operação da Sigma.[59]
E vem o desprezo. Na COP30, em novembro de 2025, a presidente da Sigma, Ana Cabral, chamou os moradores da região de “mulas de água” de uma “geração perdida” que a empresa teria salvado.[60]
Guarda essa frase, companheiro. Em duas palavras ela diz o que o capital pensa da gente que mora em cima da riqueza que ele quer.
Poços de Caldas: mineração em cima de lixo nuclear
No sul de Minas, o Planalto Vulcânico de Poços de Caldas concentra dois grandes projetos de terras raras: o Projeto Caldeira, da australiana Meteoric Resources, e o Projeto Colossus, da Viridis Mining. Tudo na mesma área onde está sendo desmontada a antiga mina de urânio da INB.[61]
Em junho de 2026 uma comitiva de vários ministérios percorreu a região depois da pressão das comunidades. O IBAMA se comprometeu a estudar os impactos somados dos empreendimentos. Ou seja: até ali ninguém tinha juntado o efeito de minerar terras raras em cima de um passivo radioativo. Passaram até a avaliar federalizar o licenciamento.[62] Repara na ordem dos fatos: primeiro o projeto avança, depois se estuda se ele pode existir.
Minaçu: a cidade que respira
Já falamos dos trabalhadores. Mas as denúncias registradas no Mapa de Conflitos da Fiocruz apontam que a cidade inteira era atingida pela névoa que a mineradora e a fábrica de fibrocimento soltavam sobre Minaçu.[63] Amianto não separa quem tem carteira assinada de quem só mora do lado.
E o Congresso decidiu não ouvir ninguém
O PL 2780 foi aprovado na Câmara sem nenhuma proteção social ou ambiental. As emendas que pediam critério ambiental e duas cadeiras para povos e comunidades tradicionais no conselho que vai decidir a política, duas cadeiras apenas, foram todas rejeitadas pelo relator.[64] No Senado, a audiência pública com os movimentos sociais foi cancelada duas vezes.[65] A APIB, que é a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, denunciou que estão montando políticas de forte impacto sobre território indígena sem mecanismo nenhum de proteção e de participação.[66]
Nenhum desses povos é minoria abstrata. São trabalhadores rurais, pescadores, camponeses, gente que vive do próprio trabalho. Separar “a classe operária” das “comunidades atingidas” é invenção conveniente de quem quer enfrentar as duas separadas. Em Minaçu, o mineiro doente e o vizinho que respirou a mesma névoa são a mesma família.
8. O que a renda mineral poderia ser: indústria, saúde, escola, aposentadoria
Chega de denúncia. Vamos medir, sempre a partir do mineral, como avisamos no capítulo 1.
O Orçamento federal de 2026, sancionado em janeiro, prevê:[67]
- Saúde: R$ 271,3 bilhões para todo o SUS do país.
- Educação: R$ 233,7 bilhões.
- Previdência: mais de R$ 1,11 trilhão.
- Bolsa Família: R$ 158,6 bilhões, sem aumento real no valor médio do benefício.
Agora compara com o que o setor mineral movimenta:
- O faturamento do setor mineral em 2025, R$ 298,8 bilhões, é maior que todo o orçamento da Saúde e maior que todo o orçamento da Educação deste ano.
- Desse faturamento, a CFEM foi de R$ 7,9 bilhões. Isso é cerca de 2,6% do faturamento e menos de 3% do orçamento da Saúde. Com sonegação que o próprio TCU estima em até 40%.
- O saldo comercial mineral de US$ 37,6 bilhões, que é 55% do superávit do país, dá, a um câmbio de R$ 5,50, cerca de R$ 207 bilhões. São três quartos do orçamento da Saúde.[68]
- As perdas da Lei Kandir, R$ 268,9 bilhões entre 1997 e 2016, dão um ano inteiro de SUS. Foi subsídio para exportar riqueza crua.
- E o setor pretende investir US$ 76,9 bilhões entre 2026 e 2030, cerca de R$ 423 bilhões. Esse dinheiro vai ser investido de qualquer jeito. A pergunta é: decidido por quem, e para construir o quê?
E quando falta dinheiro, quem manda cortar?
Vale registrar quem opina sobre o orçamento brasileiro, porque isso é público e qualquer um pode conferir.
Na consulta anual de 2026, o FMI, o Fundo Monetário Internacional, recomendou ao Brasil um ajuste fiscal mais ambicioso, da ordem de 3 pontos do PIB até 2031, com reformas para enfrentar a chamada “rigidez dos gastos” e para “reduzir as renúncias fiscais”.[69] “Rigidez dos gastos” é o nome técnico dos pisos da saúde e da educação que estão na Constituição. É justamente o que impede que o corte caia em cima do SUS e da escola pública.
Duas observações honestas sobre isso, porque aqui a esquerda costuma errar.
Primeira: o Brasil não deve nada ao FMI desde dezembro de 2005, quando o governo Lula antecipou o pagamento de US$ 15,46 bilhões. Em 2009 o país até emprestou dinheiro ao Fundo.[70] Quem diz que a dívida brasileira é “com o FMI” está errado, e nós não vamos repetir esse erro. A dívida é interna, em real, e os credores são bancos e fundos brasileiros. Como resume a Auditoria Cidadã da Dívida, deixamos de dever ao Fundo para dever aos bancos.[71]
Segunda, e mais importante: o Fundo não precisa cobrar dívida para mandar. Em fevereiro de 2026 foram os próprios Ministérios do Planejamento, da Fazenda e da Gestão que se reuniram com uma missão técnica do FMI e pediram uma nota com recomendações sobre o gasto público brasileiro, para orientar as reformas em curso.[72] Ninguém impôs. O governo convidou. E em 2018 esse mesmo Fundo elogiou o teto de gastos e a reforma trabalhista.[73]
Repara na ironia. O FMI recomenda reduzir renúncia fiscal, e o Congresso brasileiro acaba de criar R$ 5 bilhões em crédito fiscal para as mineradoras, com apoio do governo. Quando é para cortar, o alvo é o piso da saúde. Quando é para abrir mão, quem ganha é a mineradora.
Não estamos dizendo que basta somar essas cifras e sair comprando hospital. Uma economia que expropria monopólio enfrenta fuga de capital, boicote e retaliação. É por isso que essas medidas exigem controle dos trabalhadores sobre a produção e não saem por decreto. Voltamos a isso no último capítulo. O que esses números provam não é uma conta fácil. Provam que a riqueza mineral existe, é enorme, e a única pergunta é quem decide o destino dela.
Se quem decidisse fossem os trabalhadores e as comunidades, o que seria feito com a renda mineral? Começaria por aqui.
Primeiro: industrializar, porque sem isso o resto não se sustenta.
- Fábrica pública de separação de terras raras, retomando o que a Nuclemon já fez e o país desmontou, junto com o Serviço Geológico, o CETEM, a INB e as universidades federais.
- Cadeia nacional de ímãs, com metalização, liga e ímã, e não só o beneficiamento inicial. Aço no lugar de minério de ferro. Gasolina e diesel no lugar de petróleo cru.
- Proibição de exportar concentrado bruto de mineral estratégico sem processamento, com prazo definido e financiamento público amarrado a meta de emprego com carteira e a transferência real de tecnologia. Não a “ambiente de negócios”.
Segundo: saúde do trabalhador no lugar onde ela é destruída.
- Rede pública de saúde do trabalhador nas regiões de mineração, com hospital especializado em doença do pulmão e doença do trabalho em Minaçu. Não daqui a cinquenta anos. Agora, para quem já está doente.
- Fim imediato da perícia médica paga pela empresa. Nenhum laudo de doença do trabalho pode ser assinado por médico contratado por quem vai ter que indenizar. Perícia pública, independente, com participação do sindicato.
- Reconhecimento automático da ligação entre a doença e o trabalho nas atividades de risco comprovado. Que a empresa prove que não adoeceu o trabalhador, e não o contrário.
Terceiro: escola onde estão os recursos.
- Escola técnica e campus de universidade pública em Minaçu, Araxá, Itabira, Itinga, Araçuaí, Poços de Caldas e Parauapebas, formando químico, metalúrgico, engenheiro e técnico de processo dos próprios lugares onde se minera. Separar terra rara não se resolve contratando consultor de fora. Se resolve formando gente daqui.
- Transporte, permanência e ensino em tempo integral garantidos, porque hoje o que a chegada da mineradora produz é jovem largando a escola.
Quarto: aposentadoria de quem envelhece antes da hora.
- Revogação da reforma da Previdência de 2019.
- Aposentadoria especial de verdade para atividade insalubre, com menos tempo e sem redução do valor, porque um corpo que passou anos em turno de doze horas, poeira e barulho não chega aos 65 igual ao de quem trabalha sentado.
- Contagem integral, para a aposentadoria, do tempo trabalhado como terceirizado, sem os buracos de contribuição que hoje deixam esse trabalhador sem nada no fim.
E para as comunidades:
- Água e saneamento garantidos por lei antes de qualquer licença de operação, com prioridade absoluta do abastecimento das pessoas sobre o uso industrial.
- Fundo territorial formado com a renda mineral e administrado pelas comunidades atingidas junto com os trabalhadores. Não pela prefeitura, não pela empresa, não por “responsabilidade social”.
Nada disso é sonho técnico. Tudo isso cabe folgado dentro de um setor que fatura quase R$ 300 bilhões por ano e devolve 2,6% ao país. O que não cabe é dentro da propriedade privada dos monopólios.
9. Por que somos contra a Terrabras
Diante disso, uma parte da esquerda propõe criar a Terrabras, uma estatal para explorar e processar terras raras e minerais estratégicos. Defendem essa saída o deputado Pedro Uczai, do PT, o deputado Rodrigo Rollemberg, do PSB, e a Bancada da Esquerda Radical do PSOL.[74]
Nós dizemos com franqueza: é melhor que a entrega pura e simples, e é muito melhor que o PL 2780. Mas não resolve. E nós não vamos prometer ao trabalhador uma solução que sabemos que não é solução.
O motivo é simples, e quem nos dá o argumento é o próprio defensor da Terrabras. O líder do PSOL na Câmara, ao defender o monopólio estatal das terras raras, usou a comparação explícita: como foi feito com o petróleo na década de 1950, quando foi criada a Petrobras.[75]
Aceitamos a comparação. E olhamos o que ela deu, setenta anos depois:
- R$ 427,1 bilhões em dividendos em cinco anos;
- mais de 40% do capital em mãos estrangeiras, hoje mais do que a fatia da União;
- fim do monopólio de operação do pré-sal por lei aprovada em 2016;
- quatorze multinacionais nos contratos de partilha;
- e um país que exporta petróleo cru e importa derivado. Ou seja, que não resolveu no petróleo o mesmo problema industrial que agora se promete resolver nas terras raras.
A estatal brasileira, dirigida por, burgueses, burocratas e amarrada à lógica do mercado, não é barreira contra a sangria de valor. É um dos canais dela. “O petróleo é nosso” produziu uma empresa que hoje distribui centenas de bilhões a acionistas, boa parte deles no exterior.
E fica uma pergunta que os defensores da Terrabras precisam responder: o que impede a Terrabras de exportar concentrado bruto exatamente como a Serra Verde faz? No texto que eles propõem, nada. Se a empresa for tocada com critério de lucro de curto prazo, que é o critério de toda estatal amarrada ao arcabouço fiscal e cobrada por dividendo, ela vai fazer a conta e vai encher o navio. A US$ 107 a tonelada, com a bandeira do Brasil na popa.
Repara também na letra do programa deles. A cláusula de controle pelos trabalhadores aparece, mas ligada à reestatização da Eletrobras e das refinarias. No item que cria a Terrabras não tem cláusula de controle nenhuma. E em ponto nenhum se explica como funciona: quem elege a direção, quem abre os livros, quem pode derrubar um dirigente. Sem isso, “controle dos trabalhadores” vira adjetivo bonito, não vira poder.
E tem uma falta ainda mais grave, depois de tudo o que lemos nos capítulos 6 e 7. Os documentos que propõem a Terrabras descrevem com força a expulsão de indígena, quilombola e ribeirinho, e depois não dão a eles nenhum poder de decisão sobre a empresa que vai minerar em cima da terra deles. A emenda mais avançada apresentada na Câmara pedia duas cadeiras para povos e comunidades tradicionais no conselho. Representação para opinar, não para decidir. E foi rejeitada.
Uma Terrabras com perícia médica paga pela própria empresa, com terceirização na atividade principal, sem poder de decisão das comunidades sobre a água e exportando concentrado seria, para o trabalhador de Minaçu e para a aldeia Cinta Vermelha, exatamente a mesma coisa. Só que com a bandeira do Brasil na fachada.
A nossa proposta é outra: estatização sem indenização, sob controle operário e popular.
Isso quer dizer, na prática:
- Direção eleita, com assento das comunidades. A direção da empresa é eleita pelos trabalhadores do setor e, junto com eles, pelas comunidades dos territórios onde se minera, através dos seus próprios organismos: assembleia de aldeia, associação quilombola, comissão de atingidos. Não é conselho consultivo. É cadeira na direção, com voto.
- Mandato revogável. Qualquer dirigente pode ser derrubado a qualquer momento por quem o elegeu, trabalhador ou comunidade.
- Livros abertos. Contrato, custo, preço de venda, destino da exportação, laudo médico. Tudo público e auditável pelos trabalhadores e pelas comunidades.
- Poder de veto das comunidades atingidas sobre licenciamento, uso da água e ritmo de lavra. Quem mora ali decide se pode e em que condições.
- Fim da terceirização. Contratação direta, um estatuto só, um sindicato só. Mariana, Brumadinho e Itabira são argumento suficiente.
- Comissão de segurança eleita pela base, com poder real de parar a produção diante de risco, e sem que ninguém seja demitido por isso.
- Plano industrial decidido pelos trabalhadores, e não pelo preço do dia: separação, metalização e ímãs no país, com meta pública e prazo. Só quem não vive de dividendo tem interesse em esperar a década que a indústria exige.
A diferença para a Terrabras não é de grau. É de sujeito. Na Terrabras quem decide é o Estado, o mesmo Estado que aprovou a Lei Kandir, que fixou uma CFEM de no máximo 3,5%, que financiou a Sigma com dinheiro público e que não cobra royalty de quem sonega. Na nossa proposta quem decide é quem trabalha e quem mora.
10. O mesmo vale para a Vale, para a Petrobras e para o nióbio da família Moreira Salles
Não é programa para um mineral só. É um critério.
Vale: reestatização sem indenização, sob controle dos trabalhadores junto com as comunidades atingidas de Mariana, Brumadinho, Itabira e Carajás, com assento delas na direção. Uma empresa cuja terceirização matou 119 pessoas em um único dia não tem moral para se autorregular. Fim imediato da terceirização em toda a operação, e plano de siderurgia nacional para que o minério que responde por metade do faturamento mineral do país saia como aço.
Petrobras: 100% estatal, revogação da Lei 13.365/2016 e fim da partilha com multinacional, fim da política de dividendos que sangra o excedente para Nova York, retomada do refino, direção eleita pelos petroleiros com assento das comunidades atingidas pelas refinarias e pelos terminais. Não basta reestatizar. É preciso mudar quem manda dentro.
Nióbio: e aqui é preciso honestidade, porque o caso é mais complicado e nós não vamos simplificar.
A CBMM, de Araxá, em Minas Gerais, controla entre 80% e 90% de todo o nióbio vendido no mundo. Quem manda nela é a família Moreira Salles, dona do Itaú, com 70% do capital. Outros 15% são de um consórcio de estatais chinesas, comprados em 2011 por US$ 1,95 bilhão, e 15% de um consórcio japonês e sul-coreano.[76]
E, ao contrário das terras raras, a CBMM processa e industrializa dentro do Brasil: ferronióbio, óxidos, e até tecnologia de bateria. Daqui não sai pedra bruta.
Isso enfraquece a versão simplista da nossa tese? Enfraquece a simplista, sim, e é por isso que não usamos a simplista. O que o caso da CBMM mostra é outra coisa, e é decisiva para o capítulo 3: industrializar é possível. Existe capital, existe tecnologia, existe mercado. O que não existe é espalhamento. Setenta anos de nióbio brasileiro, com monopólio mundial e valor agregado aqui dentro, não construíram um parque industrial, não formaram uma cadeia de fornecedores, não criaram um polo na região. Criaram um banco.
O nióbio prova o ponto de um jeito ainda mais forte que as terras raras: não é a nacionalidade do dono que decide o destino da riqueza, e nem mesmo a existência de fábrica. É a classe do dono. Industrialização sob propriedade privada gera lucro privado, não desenvolvimento.
Estatização da CBMM sem indenização, sob controle dos trabalhadores de Araxá, dos motoristas que transportam o minério e da população da região.
E cuidado com um perigo real. A bandeira do nióbio foi capturada durante anos pela extrema direita, com aquela conversa do “nióbio salvador”. Nós não disputamos essa bandeira. Nós viramos ela do avesso. O bolsonarismo é o setor mais entreguista do país. Foi Eduardo Bolsonaro quem articulou em Washington o tarifaço contra o Brasil, e foi Flávio Bolsonaro quem, na CPAC do Texas, em 28 de março de 2026, disse que “o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.[77] Quem grita “soberania” e negocia sanção contra o próprio país não tem nada para nos ensinar.
11. Por que Lula não está enfrentando Trump de verdade
Vamos começar pelo que é verdade, para que a crítica tenha peso.
É verdade que Trump atacou o Brasil. A carta de 9 de julho de 2025, que anunciou tarifa de 50%, exigia abertamente que o Judiciário brasileiro recuasse no processo contra Bolsonaro.[78] É intromissão escancarada, e foi articulada por brasileiros. Em julho de 2026, mesmo depois de a Suprema Corte norte-americana ter derrubado parte da base jurídica do tarifaço, os Estados Unidos substituíram a tarifa global de 10% por uma de 25% e somaram mais 12,5%, chegando a até 37,5% sobre parte da pauta exportadora.[79]
E é verdade que o governo Lula recusou o acordo federal de minerais críticos e disse que essa riqueza é do povo brasileiro.
Dito isso: o que o governo fez de concreto contra a agressão?
- A Lei da Reciprocidade, aprovada pelo próprio Congresso, existe, teve o processo formalmente aberto e nunca foi usada para impor uma única contramedida. Lula declarou à agência Reuters, em 6 de agosto de 2025, que não ia retaliar, porque não queria brigar com os Estados Unidos.[80]
- A remessa de lucro das multinacionais, US$ 45,5 bilhões saindo por ano, segue intocada. Nenhum controle de capital, nenhuma suspensão, nem como medida de pressão.
- Enquanto isso o PL 2780 foi aprovado na Câmara com apoio do Planalto, criando R$ 2 bilhões de fundo e R$ 5 bilhões em crédito fiscal para atrair o mesmo capital estrangeiro cuja pressão o governo diz combater.
- A resposta ao tarifaço foi o Brasil Soberano III: R$ 18,5 bilhões em linha de crédito para as empresas exportadoras atingidas.[81] Ou seja, dinheiro público para cobrir o prejuízo do patrão. Nenhum centavo e nenhuma garantia para o trabalhador demitido nas fábricas atingidas.
Esse é o padrão do governo, e ele tem nome: conciliação de classes. Lula denuncia o imperialismo no discurso e negocia com ele na prática, porque governa junto com a burguesia brasileira. E essa burguesia, como já vimos, é sócia menor do capital estrangeiro e não tem nenhum interesse em romper essa sociedade. Um governo de frente popular não consegue enfrentar o imperialismo, porque enfrentar o imperialismo significaria enfrentar os próprios sócios.
Quando Lula explica o que ele entende por soberania nas terras raras, o limite aparece inteiro: exigir que a empresa estrangeira, além de extrair, processe aqui. Repara no que isso significa depois do capítulo 3. Não é projeto de industrialização brasileira. É pedido para que o industrializador estrangeiro monte uma etapa da cadeia dele dentro do nosso território. A mina continua sendo dela, a tecnologia é dela, a decisão é dela, o lucro é dele. E no dia em que ela resolver ir embora, sobra o buraco. Foi assim com a Ford, que lucrou bilhões, recebeu subsídio e fechou as portas. Foi assim com a Fagundes no Jequitinhonha, que encerrou as atividades e deixou 500 trabalhadores na rua.
Exigir do governo é correto. Mas confiar seria erro.
Aqui precisamos ser bem claros, porque esse ponto costuma gerar confusão.
Nós exigimos do governo Lula, sim, e vamos continuar exigindo. Exigimos a aplicação da Lei da Reciprocidade. Exigimos a suspensão da remessa de lucros. Exigimos a revogação da Lei Kandir e o aumento da CFEM. Exigimos a estatização da Serra Verde. Exigimos fim da terceirização e perícia médica independente. Não somos daqueles que ficam de braços cruzados dizendo que não adianta pedir nada porque o governo é burguês.
Exigir é correto por duas razões. Primeiro, porque essas medidas são justas e o povo tem direito a elas. Segundo, e mais importante, porque é exigindo em conjunto que a classe se organiza e descobre na prática quem é quem. Cada exigência apresentada em assembleia, cada abaixo-assinado levado ao portão de fábrica, cada delegação de comunidade que vai ao gabinete é uma oportunidade de reunir gente, discutir e medir forças.
Mas nós não temos ilusão, e não vamos vender ilusão para ninguém. Nós acreditamos que esse governo não vai cumprir. Não é desconfiança pessoal com Lula. É o que já foi demonstrado em treze anos de governo e nestes três últimos: não aplicou a reciprocidade, não tocou na Lei Kandir, não reestatizou a Vale, não impediu a venda da Serra Verde e aprovou o PL 2780. Quem governa junto com o patrão não vai expropriar o patrão.
Por isso a nossa política não termina na exigência. A exigência é o começo, e a organização é o que decide.
O que vai definir se essas medidas saem do papel não é a boa vontade de um ministro. É se o mineiro de Minaçu, o metalúrgico de Indaiatuba, o petroleiro, o motorista de caminhão de minério, a aldeia de Araçuaí e o quilombo do Jequitinhonha estiverem organizados juntos, com força própria, capazes de parar a produção e de ocupar a rua. A única coisa em que nós confiamos é na organização da classe trabalhadora em aliança com as comunidades atingidas. Nada além disso arrancou nada neste país, em nenhum momento da história.
12. Só um governo dos trabalhadores pode fazer isso
Aqui não vamos prometer que a história caminha sozinha. Vamos apresentar um argumento e uma aposta, e dizer com clareza qual é qual.
O argumento é este. Cada medida proposta neste texto (expropriação sem indenização, direção eleita pelos trabalhadores com assento das comunidades, mandato revogável, fim da terceirização, perícia médica independente, fábrica pública de separação e cadeia de ímãs, revogação da Lei Kandir e da reforma da Previdência) atinge de frente a propriedade privada e a sociedade da burguesia brasileira com o capital estrangeiro.
Nenhum governo que dependa da burguesia para governar vai executar isso. Não é maldade de ninguém. É composição. Um governo que tem Alckmin de vice, que depende do Centrão para aprovar orçamento e que entregou o maior Plano Safra da história ao agronegócio, R$ 525 bilhões, mais de três vezes o Bolsa Família,[82] não vai expropriar a Vale nem tirar a CBMM dos Moreira Salles.
E tem uma razão mais funda, que é o fio deste texto inteiro. Industrializar exige horizonte de longo prazo. Exige prender capital sem retorno rápido, formar gente, errar e insistir. Nenhuma burguesia sócia menor faz isso, porque para ela a conta racional é o navio de concentrado. Nenhum governo submetido a ela faz isso, porque a cada quatro anos o arcabouço fiscal cobra resultado primário e o mercado cobra dividendo.
Só uma classe que não vive de lucro tem interesse material em esperar a década que a indústria exige. Porque o que ela ganha não é dividendo. É emprego com carteira, é escola técnica no município, é hospital que trata o pulmão do pai, é filho que vira técnico de processo em vez de terceirizado na cava.
Aqui está a diferença entre nós e boa parte da esquerda que denuncia as mesmas coisas que nós denunciamos. Eles terminam sempre no mesmo lugar: exigimos que o governo tome medidas. O destinatário é o Estado. O programa é uma lista de leis para o Congresso votar. Nós também exigimos, como explicamos no capítulo anterior. Mas para nós o destinatário principal é você, que está lendo isto no vestiário, no ônibus da empresa, no portão de fábrica, na boca da mina.
Não escondemos a dificuldade. Um governo que expropriar os monopólios vai enfrentar fuga de capital, sabotagem, boicote e ameaça militar. É justamente por isso que a fórmula é controle operário e popular. Só quem opera a máquina pode impedir que a máquina seja parada contra o povo. Só quem tem os livros abertos consegue rastrear o dinheiro que tenta sair. E só quem mora no território consegue defender a água quando a empresa quiser secá-la. Por isso essa luta também não termina na fronteira do Brasil: a mesma cadeia que passa por Minaçu passa pelo Congo, pelo Chile, pela Bolívia e pela Indonésia, e os trabalhadores desses países são nossos aliados, não nossos concorrentes.
A aposta é esta. De todas as classes desta sociedade, só a classe trabalhadora tem interesse material em romper esse pacto, porque é a única que não recebe nada dele. E tem a posição para fazer isso: nada sai da mina, nada é processado, nada é transportado, nada é embarcado no porto sem que trabalhador faça. Isso não é lei da história que se cumpre sozinha. É uma possibilidade que se realiza se, e somente se, essa classe se organizar como força política própria, junto com os povos e comunidades dos territórios.
Chamamos isso de governo dos trabalhadores: um governo apoiado nos organismos que a própria classe cria, como comitê de fábrica, sindicato combativo, assembleia de aldeia e comissão de atingidos, e não no aparato de Estado que herdamos, que foi construído justamente para administrar a ordem que queremos derrubar.
A riqueza está debaixo dos nossos pés. Quem arranca ela da terra somos nós. Quem morre em Brumadinho e adoece em Minaçu somos nós. Quem fica sem água em Araçuaí é o nosso povo. E quem pode transformar essa pedra em indústria, em emprego e em vida digna também somos nós, se tomarmos o comando.
Não queremos vender a nossa terra a 107 dólares a tonelada. Queremos que a riqueza seja de quem trabalha e de quem vive onde ela está.
*Este texto é uma contribuição ao debate entre os trabalhadores. Se você trabalha na mineração, na metalurgia ou no transporte de minério, ou mora em um território minerado, escreva para nós e conte o que acontece no seu local de trabalho: a escala, os acidentes que não viram estatística, quem faz o seu exame médico, o que aconteceu com a água da sua comunidade. O que você tem a dizer vale mais do que qualquer análise escrita de fora.*
[1]U.S. Geological Survey (USGS), Mineral Commodity Summaries 2025. O USGS é o serviço geológico do governo dos Estados Unidos e sua série anual é a referência internacional para reservas minerais. Dado reproduzido também pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e pela Agência Brasil, 25 abr. 2026.
[2]ANM (Agência Nacional de Mineração), Sumário Mineral 2025. A ANM é a autarquia federal responsável pela fiscalização da atividade minerária no Brasil, vinculada ao Ministério de Minas e Energia.
[3]Serviço Geológico do Brasil (SGB), definição oficial: 15 lantanídeos mais escândio e ítrio. O SGB é o órgão federal responsável por avaliar o potencial mineral do país, antes chamado de CPRM.
[4]SGB e USGS, dados reproduzidos por Agência Brasil, “Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças”, 25 abr. 2026.
[5]Levantamento sobre o Vale do Lítio em Minas Gerais; a ANM registra 11 projetos em desenvolvimento na região. Dado reproduzido por Gazeta do Povo, 9 abr. 2026.
[6]IBRAM (Instituto Brasileiro de Mineração), relatório Setor Mineral 2025, divulgado em coletiva de imprensa em 3 fev. 2026. O IBRAM é a entidade patronal que representa as empresas de mineração no Brasil; usamos os dados dele justamente porque são da própria patronal.
[7]USGS, Mineral Commodity Summaries 2025, produção de óxidos de terras raras em 2024.
[8]USGS (participação chinesa na extração) e Agência Internacional de Energia, AIE (capacidade global de refino).
[9]Banco Central do Brasil, série de renda primária do balanço de pagamentos e Censo de Capitais Estrangeiros, dados de 2024.
[10]EU Industrial R&D Investment Scoreboard, ranking das 2.500 empresas que mais investem em pesquisa e desenvolvimento no mundo.
[11]Lei Complementar nº 87, de 13 de setembro de 1996, conhecida como Lei Kandir. ICMS é o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, cobrado pelos estados.
[12]Estudo sobre perdas dos estados apresentado à Câmara dos Deputados; Lei Complementar nº 176, de 2020, que fixou a compensação.
[13]Lei nº 13.540/2017, que fixou as alíquotas da CFEM. A CFEM está prevista no artigo 20, parágrafo 1º, da Constituição Federal.
[14]ANM, arrecadação da CFEM em 2025; IBRAM, faturamento do setor em 2025. Cálculo da proporção feito pelo autor.
[15]TCU (Tribunal de Contas da União), Acórdão nº 2.116/2024, Plenário, auditoria sobre a arrecadação da CFEM no período 2014-2021.
[16]Leilão de privatização da Companhia Vale do Rio Doce, 6 de maio de 1997, no âmbito do Programa Nacional de Desestatização.
[17]Dados sobre os desembolsos do BNDES no período 2007-2013 à chamada política dos “campeões nacionais”.
[18]PL 2780/2024, aprovado pela Câmara dos Deputados em 6 de maio de 2026 na forma do substitutivo do relator. Cria a PNMCE, o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM) com R$ 2 bilhões e até R$ 5 bilhões em créditos fiscais em cinco anos. Fonte: Agência Câmara de Notícias.
[19]Ficha de tramitação do PL 2780/2024, Câmara dos Deputados. Sobre a influência do lobby mineral no texto, ver reportagem de CartaCapital, edição nº 1411, 6 maio 2026.
[20]Registro da votação em plenário; declarações do líder do PSOL, deputado Tarcísio Motta. Fontes: Congresso em Foco, 6 maio 2026; Instituto Socioambiental (ISA), 11 maio 2026; Revista Fórum, 22 abr. 2026.
[21]IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Contas Nacionais, série a preços correntes; análise da FGV sobre a indústria de transformação. As séries do IBGE passaram por mudanças metodológicas que dificultam a comparação direta entre períodos, e por isso apresentamos três fontes distintas.
[22]IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), cálculos com base nas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, descontada a inflação setorial.
[23]CNI (Confederação Nacional da Indústria), acompanhamento da participação setorial com base nas contas nacionais.
[24]CNI, participação da indústria de transformação brasileira na produção manufatureira mundial.
[25]CNI, dados de 2024 sobre emprego formal e participação da indústria de transformação no investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento.
[26]Nota técnica sobre estratégia nacional para minerais críticos e terras raras, publicada pelo Instituto Transforma, jun. 2026. A Nuclemon era subsidiária das Indústrias Nucleares do Brasil. O CETEM é o Centro de Tecnologia Mineral, ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia.
[27]Levantamento da Elos Ayta Consultoria com base em dados da B3, a bolsa de valores brasileira, sobre dividendos da Petrobras em cinco anos.
[28]Composição acionária da Petrobras. ADR significa American Depositary Receipt, que é o papel pelo qual as ações brasileiras são negociadas na bolsa de Nova York.
[29]Lei nº 13.365, de 29 de novembro de 2016, que alterou a Lei do Pré-Sal e retirou a obrigatoriedade de a Petrobras ser operadora única com participação mínima de 30%.
[30]Dados de produção do pré-sal no primeiro semestre de 2025. “boe” significa barris de óleo equivalente.
[31]Perfil operacional da Serra Verde Pesquisa e Mineração, mina Pela Ema, Minaçu (GO).
[32]Estrutura societária original da Serra Verde. Ver CNBC, 20 abr. 2026, e comunicados da própria empresa.
[33]Reportagem da Agência Pública sobre os destinos da produção da Serra Verde em 2025.
[34]Comunicado oficial da Serra Verde sobre o financiamento da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), 6 fev. 2026, incluindo opção de aquisição de participação acionária minoritária pelo governo dos EUA. Um pacote inicial de US$ 465 milhões havia sido anunciado em novembro de 2025.
[35]Comunicado da USA Rare Earth (Nasdaq: USAR) e da Serra Verde, 20 abr. 2026; formulário registrado na SEC, que é a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos. Valor patrimonial implícito de aproximadamente US$ 2,83 bilhões, considerando US$ 300 milhões em dinheiro mais 126,849 milhões de ações novas.
[36]Memorando de entendimento entre o Estado de Goiás e o governo dos Estados Unidos, assinado em 18 mar. 2026. O documento é classificado pelas partes como declaração de intenções não vinculante. Juristas questionaram sua constitucionalidade, uma vez que os recursos do subsolo pertencem à União.
[37]Declaração do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) reportada por Exame, jul. 2026. Ver também Reuters, 7 maio 2026, sobre a ausência de acordo assinado.
[38]Aporte do Novo Fundo Clima, operado pelo BNDES, à Sigma Lithium para ampliação do projeto Grota do Cirilo.
[39]IBRAM, emprego direto na indústria extrativa mineral em novembro de 2025, com base no Novo CAGED. O número exclui petróleo e gás. Não há série pública desagregada exclusivamente para minerais críticos.
[40]Dados sobre o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), 5 nov. 2015. Ver Brasil de Fato, 1 fev. 2020.
[41]Dados sobre o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), 25 jan. 2019, apurados por comissão internacional de investigação: 109 terceirizados mortos e 10 desaparecidos, num total de 270 vítimas.
[42]Registros de acidentes de trabalho nas áreas da Vale em Itabira (MG), janeiro a setembro de 2023, divulgados pelo Sindicato Metabase Itabira.
[43]Denúncias do Sindicato Metabase sobre jornada e terceirização em Carajás (PA).
[44]CNQ-CUT, que é a Confederação Nacional do Ramo Químico da Central Única dos Trabalhadores, sobre os efeitos da Lei nº 13.429/2017 e da Lei nº 13.467/2017, a reforma trabalhista.
[45]Histórico da SAMA (Sociedade Anônima Mineração de Amianto), do grupo Eternit, no complexo Cana Brava, em Minaçu (GO). A mina operou por mais de cinco décadas e foi a maior de amianto crisotila do país.
[46]Reportagem de Giovanna Vial, Blog da Boitempo, jun. 2026, que descreve o acesso ao complexo Cana Brava como base de operações da mineradora Serra Verde.
[47]Depoimento de ex-trabalhador da SAMA reproduzido pela CUT, “Minaçu, a cidade que respira o amianto”.
[48]Depoimento de ex-operador de máquina da SAMA reproduzido pela ABREA (Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto).
[49]Descrição do arranjo da junta médica em artigo acadêmico sobre sofrimento social e ocultamento de doenças relacionadas ao amianto em Minaçu, publicado em revista de antropologia.
[50]Verbete do CETEM sobre a exploração de amianto em Minaçu, que registra o número reconhecido pela empresa e a contestação da ABREA.
[51]Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), verbete sobre Goiás e o amianto.
[52]Declarações do pneumologista Hermano Castro reproduzidas pela ABREA.
[53]Período de latência das doenças relacionadas ao asbesto, conforme literatura médica citada nas mesmas fontes.
[54]Denúncias das comunidades de Itinga e Araçuaí (MG) documentadas pelo Observatório da Mineração, pela Cáritas de Minas Gerais e por reportagem da Mongabay.
[55]Impacto sobre a aldeia Cinta Vermelha de Jundiba documentado nas mesmas fontes.
[56]Lançamento do Protocolo de Consulta e Consentimento Livre do Quilombo Córrego Narciso do Meio, 10 jul. 2025, registrado pela AEDAS e pelo MAM (Movimento pela Soberania Popular na Mineração).
[57]Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil pelo Decreto nº 5.051/2004 e hoje promulgada pelo Decreto nº 10.088/2019.
[58]Ação Direta de Inconstitucionalidade protocolada no Supremo Tribunal Federal em julho de 2025; recomendação do Ministério Público Federal de setembro de 2025.
[59]Encerramento das atividades da Fagundes Construção e Mineração no Vale do Jequitinhonha, noticiado pela publicação setorial Brasil Mineral.
[60]Declaração da presidente da Sigma Lithium, Ana Cabral, durante a COP30, em novembro de 2025, reproduzida pelo jornal O Tempo.
[61]Projetos Caldeira, da Meteoric Resources, e Colossus, da Viridis Mining, no Planalto Vulcânico de Poços de Caldas (MG). A INB é a estatal Indústrias Nucleares do Brasil.
[62]Compromissos assumidos pela comitiva interministerial que percorreu Poços de Caldas, Caldas, Andradas e Águas da Prata em 25 e 26 de junho de 2026, noticiados por Brasil de Fato, 9 jul. 2026. O IBAMA é o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
[63]Mapa de Conflitos da Fiocruz, verbete citado, sobre o impacto da névoa sobre o município de Minaçu.
[64]Emendas apresentadas pelos deputados Chico Alencar e Célia Xakriabá e rejeitadas pelo relator. Fonte: Instituto Socioambiental (ISA), 11 maio 2026.
[65]Tramitação do PL 2780/2024 no Senado Federal e cancelamentos de audiência pública, registrados por Revista Movimento, jul. 2026, e Brasil de Fato, 16 jul. 2026.
[66]Nota pública da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) sobre a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
[67]Lei Orçamentária Anual de 2026, sancionada em 15 de janeiro de 2026. Fonte: Ministério do Planejamento e Orçamento. SUS é o Sistema Único de Saúde.
[68]Conversão feita pelo autor a um câmbio de R$ 5,50 por dólar. O valor em reais varia conforme a cotação do dia.
[69]FMI (Fundo Monetário Internacional), consulta do Artigo IV de 2026 com o Brasil. Comunicado do corpo técnico de 1 jun. 2026 e relatórios divulgados em julho de 2026. A consulta do Artigo IV é a supervisão anual que o Fundo faz sobre a economia dos países membros; não é empréstimo nem condicionalidade.
[70]Quitação antecipada da dívida brasileira com o FMI, US$ 15,46 bilhões, em dezembro de 2005. Em 2009 o Brasil emprestou cerca de US$ 10 bilhões ao Fundo.
[71]Auditoria Cidadã da Dívida, entrevista de Maria Lucia Fattorelli, Extra Classe.
[72]Reunião entre os Ministérios do Planejamento e Orçamento, da Fazenda e da Gestão e uma missão técnica do FMI, realizada entre 9 e 11 de fevereiro de 2026. Fonte: Ministério do Planejamento e Orçamento, 12 fev. 2026.
[73]FMI, declaração final da missão do Artigo IV de 2018, que classifica o teto de gastos e a reforma trabalhista como medidas bem-vindas.
[74]PL 1754/2026, dos deputados Pedro Uczai e Bohn Gass (PT), e PL 1733/2026, do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB); Manifesto da Bancada da Esquerda Radical, jul. 2026, item 7 do programa.
[75]Declaração do líder da federação PSOL-Rede na Câmara dos Deputados durante a votação do PL 2780, 6 maio 2026. Fonte: Congresso em Foco.
[76]Composição acionária da CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração). A participação do consórcio chinês foi adquirida em 2011.
[77]Articulação do tarifaço por Eduardo Bolsonaro, reportada por Revista Fórum e pela Fundação Mauricio Grabois; declaração de Flávio Bolsonaro na CPAC, no Texas, 28 mar. 2026.
[78]Carta do presidente dos Estados Unidos ao governo brasileiro, 9 jul. 2025, anunciando tarifa de 50% e vinculando a medida ao processo judicial contra Jair Bolsonaro.
[79]Tarifas norte-americanas de 25% (Seção 301 da lei de comércio dos EUA) e 12,5% (investigação sobre trabalho forçado), confirmadas em julho de 2026. Em fevereiro de 2026 a Suprema Corte dos EUA invalidou o uso da lei IEEPA para tarifas amplas.
[80]Declaração do presidente Lula à agência Reuters, 6 ago. 2025.
[81]Programa Brasil Soberano III, anunciado em julho de 2026, com R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para empresas afetadas pelo tarifaço.
[82]Plano Safra 2026, superior a R$ 525 bilhões; dotação do Bolsa Família na LOA 2026, R$ 158,6 bilhões.1. Qual é a riqueza mineral do Brasil e por quanto ela sai daqui
idente Lula à agência Reuters, 6 ago. 2025.
[81]Programa Brasil Soberano III, anunciado em julho de 2026, com R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito para empresas afetadas pelo tarifaço.
[82]Plano Safra 2026, superior a R$ 525 bilhões; dotação do Bolsa Família na LOA 2026, R$ 158,6 bilhões.

