O fim da 6×1 em risco enquanto cresce a exploração da classe trabalhadora brasileira

Camilo

Faz quase 2 meses que avançou na câmara dos deputados a aprovação de um projeto para o fim da escala 6×1 e a redução da jornada. Desde então o Senado comandado por Davi Alcolumbre (União Brasil) tem segurado a votação que permitiria a transformação do projeto em lei e, com muito atraso, acabar com esta escala, símbolo da exploração dos trabalhadores brasileiros.

A realidade mostrou que esta luta só avançou a partir de 2023 quando diversas manifestações pressionaram por isso e conquistando apoio de 73% da população. O governo Lula, que no princípio era contrário a ideia, mirando as eleições mudou de posição. Mas seu projeto, que rebaixou as propostas iniciais, e o acordão com Hugo Motta, colocam em risco o fim da escala 6×1.

Enquanto isso, a realidade da classe trabalhadora segue difícil. Dois terços dos trabalhadores brasileiros — 68,1%, segundo o Censo do IBGE — sobrevivem com até dois salários mínimos por mês. Soma-se a isso o adoecimento: só em 2025, a Previdência Social concedeu 546 mil benefícios por transtornos mentais e comportamentais, 15,7% a mais que no ano anterior. E é sobre quem ganha menos que a inflação mais pesa: dados do Ipea mostram os preços acelerando em 2026 justamente para quem recebe até R$ 2.299 por mês — puxados por energia elétrica e remédios —, no sentido contrário ao das faixas de renda mais alta, onde a inflação desacelera. No prato, o efeito se repete: o Dieese registra a cesta básica subindo em todas as capitais neste ano, e o trabalhador do salário mínimo já compromete cerca de 46% da renda líquida só para comprá-la.

Senado reacionário paralisa o avanço pelo fim da 6×1 e redução da jornada de trabalho!

Davi Alcolumbre, presidente do Senado eleito com o apoio oficial do PT em 2025, tem colocado todo tipo de empecilho para o avanço do projeto de lei sobre o tema. No sábado, 18 de julho, o Senado entrou em recesso sem nenhuma previsão para que o projeto fosse tratado na CCJ, primeira comissão em que ele deve ser apreciado.

As justificativas de Alcolumbre de que precisa de tempo para o Senado avaliar a proposta não passam de conversa fiada. Quando os assuntos foram de seu interesse houveram aprovações em dois turnos que aconteceram em 48h. Por outro lado, também não tem moral para alegar que a pauta é eleitoral. É um fato que ela é eleitoral e foi isso que motivou o governo a tentar avançar, mas Alcolumbre nunca teve problema com isso. Os registros oficiais estão recheados de exemplos de sessões relâmpagos para aprovar a distribuição de emendas e liberação de créditos para redutos eleitorais.

A realidade é que Alcolumbre usa o Senado para pressionar o governo para ceder mais poder para ele nas decisões e, por outro lado, segura o avanço do projeto por conta da pressão de entidades patronais contrárias a redução da jornada e da escala, principalmente setores ligadas ao comércio e serviços, mas também a indústria. Além de, claro, fazer uma tabelinha com os senadores da extrema-direita que se pronunciaram contrários ao fim da 6×1 e defendem a “PEC do trabalho flexível” que vai precarizar ainda mais as condições de trabalho.

Sua postura expõe o comprometimento do Senado com a burguesia brasileira mas, para além disso, deixa explícito o papel absolutamente reacionário que o Senado, como instituição, tem na democracia dos ricos. Recheado de exemplos na história, o Senado funciona como uma segunda casa de garantia para os interesses da elite brasileira, um freio de emergência para derrotar, retardar ou desfigurar pequenos avanços que possam ser conquistados pela classe trabalhadora no sistema capitalista.

Acordão de Lula com Hugo Motta coloca em risco direito dos trabalhadores!

O governo Lula – incluindo aí o PSOL, PT, PC do B – quiseram apresentar o governo como o responsável pelo o avanço da luta pelo fim da 6×1 e a redução da jornada de trabalho, mas isso não é verdade. O governo no início foi contrário à redução da jornada e o fim desta escala de exploração. Luiz Marinho (PT), ministro do trabalho, defendeu que isso deveria ser assunto de negociação coletiva com os patrões, ou seja, que o governo não deveria se meter.

Isso só mudou com a pressão das ruas e da luta. A pauta foi abraçada por grande parte dos trabalhadores, exaustos com o dia a dia de exploração (e baixos salários) e que conquistou hegemonia na população. Esta situação, e a busca por se localizar nas eleições polarizadas, foram os reais responsáveis pelo governo recalcular sua rota. E sua tática, fiel a sua estratégia, foi costurar um acordo com Hugo Motta, buscando esterilizar qualquer cenário de uma luta nacional.

Este acordo, por um lado, rebaixou e sabotou as propostas que já estavam em tramitação e defendiam a escala de 36h semanais e a substituição da 6×1 pela escala 4×3. Fechado em 25 de maio entre Lula e Hugo Motta, o texto prevê que a jornada caia para 40 horas somente 14 meses após a aprovação.  Por outro lado, a arquitetura de conciliação que Lula construiu, com apoio da burocracia sindical, junto de Motta deixou a classe trabalhadora refém das instituições burguesas e suas negociatas sujas.

A essência reacionária deste governo, que busca amarrar a classe trabalhadora em acordos com a burguesia, construiu agora uma armadilha para os trabalhadores que nos deixou menos organizados para pressionar e enfrentar os obstáculos criados ao fim da escala 6×1 e a redução da jornada. Só a ruptura com a política de conciliação e a independência de classe com este governo burguês podem liberar o caminho para fortalecer a luta.

Ocupar a rua pelo fim da escala 6×1 e redução de 36h, sem conciliação e de maneira independente!

Depois de quase 40 anos da promulgação da Constituição de 1988 está colocada a possibilidade de avançar na redução da jornada de trabalho. Em todo este período, apesar do aumento da tecnologia e da capacidade produtiva, ao invés de poder aproveitar mais e melhor nosso tempo, seguimos com ele sendo sequestrado para produzir o lucro dos patrões.

A saída da armadilha em que nos encontramos, exige romper a conciliação de classes defendida por Lula e seguida ao pé da letra pela maioria dos sindicatos e centrais sindicais. É preciso denunciar a paralisia que esta estratégia produz e pressionar as centrais sindicais para a construção de uma greve geral pelo fim da escala 6×1 e em defesa da redução da jornada para 36h. Para avançar na nossa pauta e derrotar Alcolumbre e a extrema direita defensora da 6×1, precisaremos também derrotar o governismo, o peleguismo e sua conciliação com a burguesia.

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