Traição da COB abre caminho para repressão na Bolívia

Frodo e Camilo

A assinatura do acordo entre o governo de Rodrigo Paz Pereira e a Central Operária Boliviana (COB) que colocou fim aos protestos e bloqueios na Bolívia abriu as portas para o avanço da repressão, prisões e perseguições em todo o país.

Horas após ser sacramentado, o governo decretou Estado de Emergência durante 90 dias e desatou uma intensa criminalização a dirigentes e manifestantes que marca um novo capítulo desta rebelião.

          O acordo foi rechaçado pelas bases mobilizadas de diversos setores operários e populares. Ele é tão ruim que sequer foi capaz de impedir nem mesmo a criminalização dos próprios dirigentes da COB.

Hoje são cerca de 500 presos, sendo cerca de 365 só na região de La Paz e El Alto. Além das prisões, tem havido uma ampliação da abertura de processos contra ativistas que participaram do levante que sacudiu o país e colocou o governo em xeque.

          No entanto, toda esta ofensiva do governo não foi capaz de fechar a situação de crise no país. Mesmo no governo dia após dia a situação se debilita.

Recentemente, inclusive, parte importante do apoio parlamentar do governo ruiu a partir da saída da Unidade Nacional (UN) de sua base. Seu líder Samuel Doria Medina rompeu publicamente com Paz Pereira.

          Neste cenário, o governo segue com pacotes de ataques duríssimos contra a classe trabalhadora e a maioria do povo, causando a desvalorização da moeda e ampliando a inflação, enquanto não resolve os problemas de desabastecimento.

Além disso, apresenta medidas de lei de investimentos que colocam em risco as estatais e abre portas para aumento da perda de controle sobre recursos estratégicos do país. Por fim segue costurando um acordo com o FMI que caminha no sentido de aprofundar a subordinação da Bolívia.

Unificar o movimento operário é central para os próximos passos do movimento

Os setores sociais mais avançados na luta de maio-junho foram aqueles agrupados em organizações camponesas e indígenas. Apesar de a COB ter sido parte dos chamados à luta não houve mobilização de peso por baixo.

A primeira constatação a fazermos é sobre as limitações que isso traz à luta. Quando o operariado para, ou seja, quando faz greve, quando interrompe a produção, a pressão que isso exerce sobre a burguesia é muito maior. Ainda que os bloqueios de rodovias sejam um método importante, eles são uma forma de luta inferior à greve, sobretudo a uma greve geral. Aí sim se atinge o coração do capital.

A segunda constatação tem a ver com por que é que não foi possível esse passo pela peãozada boliviana. Ao nosso ver há duas explicações que se combinam.

A primeira, mais histórica, é de que a maioria da mineração está em mãos de “cooperativas” (empresas de fachada para encobrir o grande capital, especialmente estrangeiro, na exploração do país). É uma explicação histórica porque desde a privatização das minas nos anos 1980 os mineiros não conseguiram uma retomada.

Apenas 2 minas voltaram ser estatais. Isso significa que a organização desse setor operário, que é o mais tradicional do país, atinge uns 5% de toda a classe trabalhadora que trabalha na mineração.

Assim como as cooperativas escondem os verdadeiros donos da atividade, elas também burlam as relações de trabalho. São mais de 130mil pessoas trabalhando sem contratos de trabalho, muitas vezes com combinados só de boca, num alto nível de precarização.

A segunda explicação, que se liga diretamente com a primeira, tem a ver com como age a COB diante desta realidade. O corporativismo é parte integrante da mineração estatal hoje. Estamos diante de um setor da classe trabalhadora boliviana que tem condições de vida e de trabalho muito superiores à média.

Os sindicatos, federações e em especial a organização máxima da classe no país, que é a COB, em vez de buscar avançar na integração dos setores precarizados na luta acabam tendo uma política de conciliação com os governos de plantão.

Essa postura acomodada inspira desconfiança em amplos setores da classe trabalhadora, os quais por vezes pisam no freio ao ver organizações de peso puxando o freio de mão. Sem confiar em quem está à frente é difícil haver grandes lutas.

É fundamental que os setores mais avançados da nossa classe aproveitem os momentos de avanço nas lutas para se organizar e avançar na construção de uma alternativa a essas direções burocráticas.

É necessária uma campanha internacional contra repressão, perseguições e prisões dos manifestantes!

          Diversos setores do movimento apostam na possibilidade de novas manifestações a partir de outubro, assim que encerrar o Estado de Emergência. Na avaliação destes setores a raiva cresce por baixo e pode, inclusive, contaminar setores que até esse momento não estavam tão simpáticos à luta.

          No entanto, a traição da COB deixou a maioria das bases que estavam mobilizadas com profunda desconfiança e raiva desta direção. O governo quer usar este momento de recuo para aprofundar a repressão e terminar de desmoralizar o movimento de massas, quebrando sua coluna vertebral e fechando de vez o processo revolucionário que se abriu em maio.

          Em meio a ofensiva dos EUA e Trump sobre a América Latina, a sorte da luta na Bolívia tem significado que transborda as fronteiras do próprio país. A vanguarda da classe trabalhadora internacional e, em particular do Brasil, precisa ampliar a solidariedade ao povo boliviano.

          É preciso construir uma campanha internacional das organizações do movimento operário para denunciar a ofensiva de repressão do governo burguês e entreguista de Paz Pereira, exigindo liberdade imediata para os presos políticos e o fim da criminalização.

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